Bologna diz que ainda não teve acesso aos dados da caixa-preta

Segundo o presidente da TAM, a empresa só vai tomar conhecimento dos dados nesta quinta-feira, à tarde

02 de agosto de 2007 | 11h00

O presidente da TAM, Marco Antonio Bologna disse, nesta quinta-feira, 2, durante depoimento à CPI do Apagão Aéreo na Câmara dos Deputados, que só vai tomar conhecimento dos dados das caixas-pretas do Air Bus a partir desta quinta-feira, "quando a empresa se integrará a equipe que analisa os dados do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa)".   Veja também:   Caixa-preta aponta que piloto não conseguiu desacelerar Airbus   CPI quer inquérito sobre vazamento de dados da caixa-preta  Quem são as vítimas do vôo 3054  Cronologia da crise aérea  Vídeos do acidente  Tudo sobre o acidente do vôo 3054     Questionado sobre a posição incorreta dos manetes do Airbus, Bologna afirmou que ainda é prematuro fazer análises sobre as causas do acidente, completando que só soube deles pela imprensa. "Todos os fatores farão parte do conjunto de investigações. Seria prematura qualquer tipo de conclusão", reafirmou.   O executivo refutou a divulgação de que a TAM tivesse determinado que seus pilotos passagem a não usar o reversor do avião pinado. "A probabilidade de pinagem é baixa, não é corriqueira. Nesse momento, não tem nenhum reversor nessa característica. Caso se tenha um caso, a política da TAM é de que a gente consulte o fabricante e tome a decisão correta até o final do processo de investigação", comentou.   Segundo o presidente da TAM, a pinagem (o travamento) do reversor, é para segurança, para evitar um problema maior, como a abertura no ar. "Não é o reverso pinado que teria causado o acidente", explicou Bologna. Para ele, o fator não é uma causa preponderante do acidente – que deixou 199 mortos, no dia 17 de julho.    Na opinião do executivo, ainda é cedo para determinar todas as causas do acidente – o maior da história da aviação brasileira. Mas, ele ponderou fatores que poderiam ter reduzido os danos do acidente, um deles seria a existência de uma área de escape em Congonhas. "A pista de Congonhas é pequena. Havendo uma área de escape maior (na pista), é sempre um atenuante", afirmou.   O executivo também foi questionado sobre se autorizou ou não a divulgação dos conteúdos da caixa preta, o que ele negou. "Não divulgamos. Ela e seu conteúdo passam a ser integrante do processo."   Bologna também foi questionado sobre por que a aeronave não desacelerou. O executivo afirmou que é prematuro e imprudente fazer qualquer afirmação. "Estamos debaixo de uma investigação. O avião não desacelerou, isso nós sabemos. Os fatores contribuintes serão apurados durante a investigação. Qualquer tipo de inferência seria prematuro. As investigações vão identificar as causas do acidente", disse.   Erro humano ou falha no avião   Na quarta-feira, 1, durante reunião sigilosa da Comissão Parlamentar de Inquérito do Apagão Aéreo, da Câmara dos Deputados, o brigadeiro Jorge Kersul Filho, chefe do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), disse que as informações gravadas nas duas caixas-pretas não são suficientes para estabelecer que um erro humano foi o único responsável pelo trágico acidente com o Airbus A320. A aeronave vinha de Porto Alegre, quando explodiu ao bater em um prédio da TAM Express e causou a morte de 199 pessoas, no dia 17 de julho.     A caixa-preta com os dados técnicos do vôo JJ 3054 indica que um dos manetes de comando das turbinas estava na posição errada, mas as informações decodificadas não revelam categoricamente se os computadores de bordo comandaram a operação, e não permitiram o uso dos freios manuais, ou se a aterrissagem que terminou com a morte de 199 pessoas foi de responsabilidade exclusiva do piloto.     Na sessão secreta da CPI do Apagão, Kersul afirmou também por que o piloto do Airbus da TAM tentou frear manualmente o avião e não conseguiu. "Quando o motor direito estava recebendo a informação de que a aeronave estava em climb (procedimento de subida), o que o computador mandou para todos os sistemas? Não freie porque isso aqui vai voar. E não abra os spoilers porque ele vai voar."   Kersul detalhou a operação e avaliou: "O piloto deve ter tentado manter o avião na pista, usando todos os mecanismos que estavam à disposição dele. Então, quando o motor começou a embalar, foi ficando mais difícil manter o avião na pista. O avião começou a se deslocar para a esquerda porque esse motor direito estava empurrando o avião." Ele contou aos deputados que em vários acidentes com as mesmas características, em que o avião sai da pista, a investigação revelou falha humana. Mas voltou a lembrar que há possibilidade de pane no computador.   Segundo o brigadeiro, o quadrante dos manetes foi recolhido dos escombros e mostrava um manete na posição climb e outro na posição idle (ponto morto). Embora tenha ressalvado que o impacto pode ter alterado a posição do manete direito, Kersul mostrou que o quadrante reforça a informação contida na caixa-preta de dados. "Está no computador qual é a posição do manete (...) Temos uma segunda comprovação. Achamos o quadrante do manete. O manete está realmente fora da posição, lembrando que, com o impacto naquela velocidade, tudo pode acontecer."   Na sua análise, os pilotos não perceberam que, inicialmente, havia um comando para frear e outro para acelerar. Kersul acredita que, se eles tivessem percebido, as informações técnicas dos últimos procedimentos mostrariam uma tentativa de reduzir o manete direito, para o ponto morto, o que não ocorreu. Não ficou claro, no entanto, por que os pilotos não perceberam o manete na posição incorreta.   Nos padrões   Durante a sessão, de cerca de três horas, Kersul projetou na parede os gráficos da caixa-preta de dados. Ele disse aos deputados que os problemas começaram mesmo do pouso em diante e que, na hora em que a aeronave tocou o solo, estava em velocidade dentro dos padrões e tocou um ponto da pista "já próximo do limite máximo, mas dentro dos limites". Nesses aspectos, de posição na pista e velocidade na hora do pouso, segundo o brigadeiro, "não houve problema algum". A separação na posição dos manetes é que teria dado origem à tragédia.   Manetes são uma espécie de marcha e devem ficar em ponto morto na hora do pouso. O brigadeiro mostrou gráficos da caixa preta com dados técnicos que comprovam que, na hora do pouso, os dois manetes estavam corretamente na posição climb e, quando o avião tocou a pista, elas "se separaram": o manete esquerda foi corretamente para a posição iddle (ponto morto) e a outra ficou onde estava. Com isso, o computador fez duas interpretações, uma para o lado esquerdo, de frear, e outra para o lado direito, de acelerar para voar.

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