Fiocruz/Divulgação
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Deputados bolsonaristas se mobilizam para colocar aliado na presidência da Fiocruz

Parlamentares acusam a entidade de aparelhamento político; eleição acontece em meio a uma pandemia e às vésperas do início da produção em massa da vacina contra a covid-19

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2020 | 12h00
Atualizado 05 de novembro de 2020 | 20h39

Correções: 05/11/2020 | 15h22

RIO - Deputados bolsonaristas se mobilizam para que o analista de gestão da Fiocruz Florio Polonini tenha votos suficientes para integrar a lista tríplice que será encaminhada ao Palácio do Planalto para a escolha do novo presidente da instituição de pesquisa. Os parlamentares acusam a entidade de aparelhamento político. Pedem uma Fiocruz “neutra”, comandada com o apoio de aliados do presidente da República, Jair Bolsonaro. Será ele que nomeará o novo presidente da fundação.

Os servidores da Fiocruz votam virtualmente entre os dias 17 e 19 de novembro e devem escolher três nomes. São quatro os candidatos. Além da atual presidente, Nísia Trindade, concorrem a uma vaga na lista tríplice o vice-presidente, Mario Moreira, e o coordenador de Vigilância em Saúde, Rivaldo Venâncio. Polonini registrou o seu nome no último momento, e agora é o quarto concorrente.

“A Fiocruz sempre foi respeitada por sua produção científica, mas nos últimos 30 anos se desviou de seu propósito original em virtude de grupos de extrema esquerda e viés revolucionário”, afirmou o deputado federal Márcio Labre (PSL-RJ), em vídeo de apoio a Polonini. O parlamentar é ex-funcionário da Fiocruz. 

A gravação foi divulgada no mesmo dia em que a Fiocruz anunciou a produção de 210 milhões de doses da vacina da Universidade de Oxford , ainda em fase de testes, contra a covid-19 no ano que vem. “Estamos oferecendo um nome alternativo.” Polonini também tem o apoio do deputado federal Carlos Jordy (PSL-RJ). 

Disputa. A eleição acontece em um momento crucial da história da instituição centenária, em meio a uma pandemia sem precedentes e às vésperas do início da produção em massa da vacina contra o novo coronavírus. A socióloga Nísia Trindade diz que a disputa é democrática, e a candidatura de Polonini é legítima. Mas ressalta o caráter de Estado da fundação.

“A eleição da Fiocruz não pode ser colocada em termos de posicionamento político, ideológico, governo versus oposição. A Fiocruz é uma instituição de estado, é ruim colocar um clima de polarização que não existe dentro da instituição. Não é que haja uma uniformidade de pensamento, claro que não, mas não existe polarização”, afirmou a presidente, que foi a primeira a comandar a instituição de pesquisa.

Nísia destacou que tem contato permanente com parlamentares de todos os partidos. Também lembrou que, durante a pandemia, houve esforço nacional da Fiocruz com o Ministério da Saúde para produzir testes de diagnóstico moleculares para atender aos mais vulneráveis. “Nada disso aconteceria se houvesse uma ideologia, um partido político”, disse. “Não é dessa forma que trabalhamos. E temos uma grande responsabilidade para o próximo período, não é qualquer instituição que pode estar à frente da produção de uma vacina neste momento.”

Polonini, por sua vez, garantiu ser apartidário. Disse que seu principal objetivo é valorizar os servidores. 

“Estão tentando me vincular a um partido político, mas sou apartidário”, afirmou ele. “Meu questionamento quanto aos demais candidatos se dá porque eles representam um só projeto. Hoje, temos dois projetos, o meu, criado com os servidores, e o da atual presidente, representado pela chapa tríplice.”

História. A Fiocruz tem unidades em dez Estados brasileiros e também em Maputo, Moçambique. A história da Fiocruz tem início em 25 de maio de 1900, com a criação do Instituto Soroterápico Federal, situado na Fazenda de Manguinhos, zona norte carioca. 

O órgão foi responsável, sob comando do bacteriologista Oswaldo Cruz, pela reforma sanitária que erradicou a epidemia de peste bubônica e também a febre amarela na cidade do Rio de Janeiro.

Correções
05/11/2020 | 15h22

O nome do deputado federal Márcio Labre (PSL-RJ) foi escrito errado na primeira versão do texto

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