Marcos Correa/PR/AFP
Marcos Correa/PR/AFP

Bolsonaro diz que visitará Chapecó, que usa remédio ineficaz contra covid e tem 100% de UTIs cheias

Mais cedo, presidente já havia compartilhado em suas redes sociais vídeo do prefeito João Rodrigues afirmando ter usado no município o 'protocolo de tratamento precoce'

Emilly Behnke e Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2021 | 18h21

BRASÍLIA - Entusiasta do chamado "tratamento precoce" contra covid-19, o presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta segunda-feira, 5, que visitará a cidade de Chapecó (SC) nesta semana. Lá, segundo o presidente, o prefeito João Rodrigues (PSD) fez "um trabalho excepcional" ao dar "liberdade total" para os médicos receitarem drogas sem eficácia comprovada contra a doença. Boletim informativo da prefeitura catarinense de hoje mostra que a cidade têm 100% dos seus leitos de UTIs ocupados.

“Quarta ou quinta-feira agora estarei em Chapecó, visitarei o prefeito João Rodrigues, onde fez um trabalho excepcional no tocante aos recursos dados pelo Estado e o atendimento na ponta da linha de quem necessitava do tratamento”, afirmou o presidente em evento para a entrega de unidades do programa Casa Verde Amarela em São Sebastião, região administrativa do Distrito Federal.

Mais cedo, o presidente já havia compartilhado em suas redes sociais vídeo de João Rodrigues em que o prefeito afirma ter usado no município o "protocolo de tratamento precoce" e incentiva governadores e prefeitos a "não ter medo" e tratar "seus pacientes com tudo aquilo que é possível". Na publicação, Bolsonaro escreveu "ouçam o Prefeito de Chapecó/SC".

Mesmo sem citar o nome dos remédios, Bolsonaro se referia a drogas como cloroquina, azitromicina e ivermectina, que, além de não terem eficácia comprovada no combate à covid-19, quando administradas sem necessidade podem causar danos à saúde de pacientes.

"Foi uma obra fantástica por parte dele (Rodrigues), é um exemplo a ser seguido, por isso estou indo para lá. Para exatamente não só ver, mas como mostrar a todo o Brasil que o vírus é grave, mas seus efeitos têm como ser combatidos", declarou Bolsonaro em seu discurso.

Ao mesmo tempo em que defende tratamento precoce com medicamentos sem eficácia, Bolsonaro passou meses desacreditando as vacinas e tem sido criticado pelo ritmo lento que a imunização avança no País. O presidente chegou a dizer que não compraria a Coronavac, principal vacina utilizada no País até agora, e desdenhou do produto da Pfizer, sugerindo que quem tomasse poderia virar "jacaré". 

A ideia do tratamento precoce vai na contramão do que é defendido pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. O chefe da Saúde também foi chamado a ir junto com Bolsonaro para a visita em Chapecó  – a cidade foi visitada pelo ex-ministro Eduardo Pazuello em março. Ainda não há confirmação oficial sobre se Queiroga viajará junto com o presidente.

"Não tem um remédio específico, ele (médico) trata da melhor maneira possível por isso os índices foram lá para baixo (em Chapecó)", citou Bolsonaro. Em fevereiro, contudo, Chapecó também vivenciou alta dos casos da doença e das mortes provocadas pela covid-19. 

O município do oeste catarinense teve 123 óbitos pela covid-19 em 2020. Ao assumir a prefeitura, em janeiro, João Rodrigues anunciou flexibilizações na quarentena, como ampliação do horário de funcionamento de bares. Semanas mais tarde a cidade entrou em colapso e registra hoje 537 mortes da pandemia. 

Por cerca de duas semanas, a partir do fim de fevereiro, Chapecó precisou tomar medidas restritivas para frear a circulação do vírus. As ações foram mais rígidas do que aquelas adotadas no resto do Estado. 

Segundo dados desta segunda-feira da prefeitura, há ainda 193 pessoas internadas, sendo 129 em UTIs do SUS e rede privada. O número é superior ao de 20 de fevereiro, por exemplo (183 internados), quando a cidade estava em colapso.

Apesar dos números, no vídeo compartilhado por Bolsonaro, Rodrigues afirma ter desativado leitos em um centro de eventos utilizados para atender pacientes de covid-19. Segundo o prefeito, não há mais necessidade de mantê-los. Procurada, a prefeitura não respondeu aos contatos da reportagem.

Tratamento precoce. Ao longo da pandemia, Bolsonaro defendeu o tratamento com remédios sem comprovação científica contra o novo coronavírus, como a cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina. O chefe do Executivo chegou a exibir uma caixa de  hidroxicloroquina em reunião do G20. Em suas lives semanais, o presidente já se referiu ao tratamento precoce como "tratamento inicial" e "tratamento preventivo". Na última transmissão ao vivo, Bolsonaro disse que "o tratamento precoce passou a ser crime no Brasil", ao ironizar as críticas a essa abordagem. 

Hoje, o presidente também voltou a defender a retomada das atividades econômicas. "Bato na mesma tecla desde março do ano passado, temos dois problemas pela frente gravíssimos ainda o vírus e o desemprego. E também sempre bati na mesma tecla as medidas para combater o vírus, os seus efeitos colaterais não podem ser mais danosos que o próprio vírus”, disse. "O Brasil precisa voltar a trabalhar", acrescentou.

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