Bom Retiro pode virar bem nacional

Iphan de São Paulo considera bairro o maior representante do multiculturalismo e da variedade étnica da cidade

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

26 Agosto 2008 | 00h00

Criado atrás do balcão de uma loja de tecidos, fundada em 1925 no bairro do Bom Retiro, no centro de São Paulo, Sérgio Camasmie levou a sério o conselho do pai de "se adaptar". Lidando com clientes japoneses, coreanos, armênios, gregos, bolivianos, israelitas, ele se comunica, ao menos o suficiente, com qualquer um deles. "A saudação, uma ou outra pergunta comum e, claro, os números, eu sei todos", diz, cheio de malícia. "Senão, como vou lhes passar o preço? Não poderia ser diferente em um lugar como o Bom Retiro", afirma Camasmie - de ascendência síria, casado com uma descendente de italianos. Ele é exemplo do que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em São Paulo chama de "multiculturalismo em situação urbana". Julgando o Bom Retiro o maior representante dessa faceta na capital, a Superintendência Regional do Iphan dá hoje o primeiro passo para que o bairro seja declarado Patrimônio Cultural Imaterial do País - a exemplo do samba de roda do Recôncavo Baiano, da Feira de Caruaru, do Frevo e da Capoeira, entre 14 práticas e cerimônias nacionais registradas, desde 2000. Entre outros 25 inventários cadastrados no Instituto, o do Bom Retiro é o único em São Paulo. Hoje e amanhã, o Iphan apresenta à comunidade, em duas reuniões públicas, um inventário de "equipamentos, cerimônias, lugares e formas de ver e pensar o mundo" que fazem do bairro exemplo de miscigenação e variedade étnica. São cerca de 230 itens, levantados pelos técnicos desde 2004 - incluindo a feira boliviana da Kantuta, as procissões de Páscoa da Igreja Ortodoxa Grega e a Lembrança do Genocídio Armênio, todas realizadas nas ruas. "O Bom Retiro, com a variedade que tem, é a síntese de São Paulo. Para homenagear os imigrantes que lá se estabeleceram e dar visibilidade ao que há nele, decidimos iniciar os trabalhos para que seja declarado patrimônio imaterial", explica a técnica do Iphan Simone Toji, coordenadora do levantamento das referências culturais do Bom Retiro. Depois de conferido o título de Patrimônio Imaterial, segundo a coordenadora, o bem tende a ganhar mais visibilidade e a receber mais atenção das autoridades. "A conservação física delas é beneficiada e o turismo é impulsionado. Ainda não está definido, mas o mais provável é que sejam escolhidas as ruas do bairro como patrimônio imaterial." Entre os representantes das várias nacionalidades do Bom Retiro, o projeto foi bem recebido. Descendente de italianos, o contador Paulo Frangiatto, de 63 anos, nasceu na Rua Solon, "numa casa de 50 metros de fundo, para caber a filharada toda", e mora na mesma via até hoje - a mulher, que também conheceu no bairro, é portuguesa. "A mescla cultural pode ser mantida por mais tempo com esse registro", afirma. Após as reuniões de hoje e amanhã, a Superintendência do Iphan estima em seis meses a elaboração do projeto final, que será enviado ao Departamento do Patrimônio Imaterial, em Brasília. O projeto será então avaliado por uma comissão especializada durante um ano - a estimativa da Superintendência é que o resultado saia no início de 2010. Depois de 10 anos, o Iphan reavalia as características locais, para avaliar se a declaração ainda faz sentido. A presença dos imigrantes no Bom Retiro teve início com a instalação, em 1867, da Estrada de Ferro da São Paulo Railway (hoje Santos-Jundiaí). Após sua inauguração, depósitos e indústrias se instalaram na região, assim como a primeira Hospedaria dos Imigrantes. Atraídos pela possibilidade de emprego, os imigrantes vieram para o bairro. No início do século 20, a colônia central era de italianos. Vindos sobretudo de Rússia, Lituânia e Polônia, os judeus chegaram ao bairro a partir de 1920 e os sul-coreanos, na década de 1960. Hoje, o Bom Retiro, com 26 mil moradores, é essencialmente comercial - ali ficam as Ruas José Paulino, Aymorés e Professor Lombroso, famosas pelas lojas de confecções. Segundo a Câmara dos Dirigentes Lojistas do bairro, são 1.500 estabelecimentos na região - 70% deles pertencentes a coreanos e 30% divididos entre italianos, gregos, armênios, bolivianos, japoneses e brasileiros. BENS IMATERIAIS DO PAÍS Feira de Caruaru (PE) Círio de Nazaré (PA) Frevo de Recife e Olinda (PE) Samba de Roda do Recôncavo Baiano Tambor de Crioula (MA): dança circular de origem afro-brasileira Ofício das Paneleiras de Goiabeiras (ES): indispensável para fazer a típica moqueca capixaba. Kusiwa (AP): técnica de pintura e arte gráfica dos índios Wajãpi Modo de Fazer Viola-de-Cocho: Produzida na Região Centro-Oeste, da mesma maneira como são produzidos os cochos em que se alimenta o gado Jongo do Sudeste: herança cultural de escravos vindos do Congo, essa expressão envolve canto, dança e percussão Cachoeira de Iauaretê (AM): lugar sagrado dos povos indígenas dos Rios Uaupés e Papuri Ofício das Baianas de Acarajé Samba do Rio de Janeiro Modo de fazer queijo de Minas Capoeira

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