Bombeiros acusados de desviar donativos para em Alagoas são presos

O secretário estadual de Defesa Social, José Paulo Rubim, e o comandante do Corpo de Bombeiros, coronel Neitônio Freitas, lamentaram o ocorrido e disseram que se trata de 'casos isolados'

Ricardo Rodrigues - O Estado de S. Paulo

23 de julho de 2010 | 18h28

MACEIÓ - Três oficiais do Corpo de Bombeiros de Alagoas foram presos no início da tarde desta sexta-feira, 23, suspeitos de desvio de donativos para os desabrigados das enchentes no Estado. Foram presos o coronel Josivaldo Feliciano de Almeida, o tenente Ederaldo dos Santos Gomes e o capitão Renivaldo de Lima. As prisões foram decretadas pelo juiz Geraldo Amorim, da 9ª Vara Criminal, a pedido da delegada Ana Luiza Nogueira. Os presos foram recolhidos no quartel do Corpo de Bombeiros, no bairro do Trapiche da Barra.

 

A própria delegada Ana Luiza foi prender os oficiais no QG do Corpo de Bombeiros. Ela estava acompanhada do sub-secretário estadual de Defesa Social, delegado federal Washington Luís. Os militares presos foram levados à sede da Divisão Especial de Investigações e Capturas (Deic), na Ladeira dos Martírios, no bairro do Farol, onde foram ouvidos. O advogado de um dos oficiais disse que sem cliente é inocente.

 

A delegada não quis dar entrevista, disse que só falaria após ouvir os presos e concluir os primeiros levantamentos sobre o caso. Os três oficiais passariam por exame de corpo de delito, no Instituto Médico Legal de Maceió. Eles teriam desviado um caminhão de sandálias, meias e material esportivo, que tinham sido doados pela Receita Federal. O material estava estocado num depósito, na Avenida Rotary, no bairro do Farol. O depósito pertence à secretaria estadual de Educação e Esporte, mas estava cedido ao Corpo de Bombeiros, para guardar donativos, que seriam distribuídos às vítimas das chuvas.

 

O advogado de um dos oficiais preso disse que seu cliente negou ter desviado donativos. Segundo Marques Fernandes, seu cliente teve a prisão preventiva decretada porque teria sido encontrado com donativos, "mas o material estaria dentro da viatura para ser levado a um dos locais de doação". O advogado disse ainda que iria entrar na Justiça pedindo a revogação da prisão do seu cliente.

 

"Cortamos na própria carne"

 

O secretário estadual de Defesa Social, José Paulo Rubim, e o comandante do Corpo de Bombeiros, coronel Neitônio Freitas, lamentaram o ocorrido e disseram que se tratava de "casos isolados".

 

Segundo o coronel Neitônio, o desvio do material que estava no depósito foi detectado por um major do Corpo de Bombeiros, na terça-feira da semana passada. Esse mesmo major, durante uma varredura no QG da corporação, sábado passado, teria encontrado donativos no armário de um soldado Dórea, que foi preso em flagrante.

 

"Tivemos que cortar na própria carne", afirmou o comandante do Corpo de Bombeiros, que preside a Defesa Civil do Estado e é responsável por todas as doações enviadas ao Estado para os desabrigados das cheias, que deixaram pelo menos 19 cidades em situação de calamidade e emergência.

 

"Quando a notícia ganhou repercussão na mídia nacional, nós já tínhamos tomados as providências", afirmou Neitônio. Questionado por que os oficiais não estavam recolhidos à prisão, a exemplo do soldado, o comandante disse que os oficiais não foram presos em flagrante, Neitônio disse ainda que não se sentia traído, porque nenhum dos oficiais envolvidos era do seu comando direto. No entanto, o coronel Josivaldo foi visto na última segunda-feira, numa reunião no Palácio República dos Palmares, acompanhando o comandante.

 

Gastos R$ 75 milhões

 

Nessa reunião, o comandante do Corpo de Bombeiros apresentou uma prestação de contas dos R$ 75 milhões, que a Defesa Civil Estadual recebeu do governo federal para as ações emergenciais nas cidades atingidas pelas enchentes e em socorro às vítimas da tragédia.

 

Ele prestou contas dos R$ 25 milhões, que chegaram na segunda semana após a tragédia, registrada entre 18 e 19 de junho. O comandante do Corpo de Bombeiros disse ainda que o governo do Estado recebeu depois mais R$ 50 milhões. "Desses recursos, R$ 10 milhões foram repassados aos municípios atingidos pelas enchentes e ele vão prestar contas à Defesa Civil, para que o Estado preste contas ao governo federal", afirmou Neitônio.

 

O comandante da Defesa Civil disse ainda que toda a prestação de contas está sendo acompanhada pelo Ministério Público Estadual, pelo Tribunal de Contas da União e pelo Tribunal de Contas do Estado, já que envolvem verbas federais administradas pelo Estado e pelas prefeituras dos municípios atingidos pelas enchentes.

 

Prejuízos de R$ 1 bilhão

 

Os prejuízos calculados pela Defesa Civil Estadual chegam a R$ 1 bilhão. Os primeiros gastos foram com as ações de socorro às vítimas, desobstrução de ruas, recuperação de pontes, recolhimento dos escombros e a limpeza das cidades. Só com a recuperação das escolas públicas, o governo do Estado e as prefeituras dos municípios atingidos vão precisar de pelo menos R$ 170 milhões.

 

Os recursos serão solicitados ao Ministério da Educação, junto com um relatório sobre os estragos e um plano para reconstruir as 115 escolas públicas destruídas pelas cheias, deixando de sem aula cerca de 52,5 mil alunos. Dos R$ 170 milhões, cerca de R$ 35 milhões serão usados para recuperar e equipar suas escolas; e R$ 135,3 milhões serão destinados às prefeituras para reconstruir e equipar as escolas municipais.

 

De acordo com o relatório apresentado pelo secretário Rogério Teófilo, nos investimentos levantados pelo Estado estão gastos de R$ 20,4 milhões com a construção de 8 escolas, R$ 3,6 milhões com a reforma de 12 unidades de ensino e R$ 10,9 milhões com a aquisição de materiais didáticos e outros equipamentos.

 

A rede municipal de ensino deve investir R$ 106 milhões na construção de 58 escolas, R$ 14 milhões na reforma de 40 unidades de ensino e R$ 14,4 milhões em materiais, equipamentos e outros gastos.

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