Bondinho do Pão de Açúcar completa 90 anos

Em 1912, o engenheiro Augusto Ramos foi considerado louco quando propôs a construção de um teleférico que ligasse a Praia Vermelha ao Morro da Urca e esse ao Pão de Açúcar. Encantado com a paisagem da cidade, ele insistiu no sonho, procurou empresários e conseguiu pôr em funcionamento os bondinhos, que no dia 27 comemoram 90 anos como um dos principais símbolos do Rio. Como Ramos, os 53 mil visitantes que admiram a cidade de cima todo mês também se deslumbram com o que vêem. "Já viajei muito e nunca vi nada igual. O passeio é rápido, mas mágico", elogia o engenheiro alemão Bernd Seeler, de 44 anos. O bondinho foi o primeiro instalado no Brasil e terceiro no mundo - embora seja o único totalmente transparente, especialmente desenhado para que se tenha uma visão privilegiada. De lá é possível observar a orla da zona Sul, a Baía de Guanabara, a Ponte Rio-Niterói e o Cristo Redentor. Maria Ercília Leite de Castro - desde 1993 diretora da empresa que administra o complexo, a Caminho Aéreo Pão de Açúcar - conta, com orgulho, que o bondinho é o mais famoso do planeta. "Todos os operadores de teleférico dizem que o nosso é o mais conhecido." O filme 007 Contra o Foguete da Morte, de 1979, em que James Bond escapa do vilão Dentes de Aço em cima de um dos bondinhos, ajudou a aumentar a fama. O pai de Maria Ercília, Cristóvão Leite de Castro, entrou na companhia em 1930. Tornou-se dono em 1969 e freqüentou as estações até morrer, três meses atrás, aos 98 anos. Ele foi o idealizador do novo sistema dos bondinhos, importado da Itália (antes, o maquinário era alemão) e instalado em 1972. "Meu pai era mineiro e se apaixonou por esse lugar. Nunca mais saiu. Era um poeta, idealista", diz ela, que, quando criança, sonhava em andar em cima dos bondinhos, como o pai. "Ele não usava qualquer sistema de segurança, não tinha medo." MovimentoLogo após a inauguração - marcada com uma badalada festa, que reuniu 500 representantes da elite carioca -, o movimento nos bondinhos era fraco. Não mais do que 50 mil visitantes por ano. "O projeto era muito arrojado para a época. A população tinha medo de andar. Somente depois da 2.ª Guerra Mundial, quando a aviação comercial se desenvolveu, o turismo foi incrementado e houve um salto para 200 mil visitantes por ano, por volta de 1946", explica Maria Ercília. De 1912 até hoje, 31 milhões de pessoas passaram pelo cartão-postal. Até 1972, era uma só cabine, que levava 25 pessoas em cada viagem, com 6 minutos de duração. A capacidade se elevou para 75 passageiros e o passeio passou a ter 3 minutos. São quatro bondes - dois até o Morro da Urca e outros dois até o Pão de Açúcar. A velocidade é de 6 metros por segundo. Na história do Pão de Açúcar, nunca houve acidente com vítimas. Durante a Intentona Comunista, em 1935, uma bala de canhão atingiu as estações, que tiveram de ser fechadas. Em 1951, um cabo de tração se rompeu com o bonde cheio e as pessoas foram retiradas durante toda uma noite. Outro susto ocorreu há dois anos, quando um cabo de compensação não resistiu. Os passageiros foram retirados de helicóptero. Foram dois meses sem funcionar. Para Maria Ercília, foi sabotagem. "O Instituto de Pesquisa Tecnológica (IPT) constatou que não era falha de manutenção nem de fabricação." Depois do episódio, a segurança nas estações foi intensificada. Este ano, o ponto turístico ficou fechado por 75 dias para que oito cabos fossem trocados - o que tem de ser feito a cada 30 anos. O investimento foi de US$ 852 mil. ManutençãoOs bondinhos seguem normas rígidas de manutenção. Todos os dias, os funcionários testam os cabos antes das visitas entrarem. Eles passam por treinamento constante e as instalações são inspecionadas a cada seis meses. Os cabos são vistoriados permanentemente por um magnetoscópio, que vistoria sua integridade. Quem participa da manutenção garante que o serviço é de primeira. O técnico Nilo Sérgio Valiatti, de 53 anos, no Pão de Açúcar há 10, diz que a satisfação dos turistas é sua maior gratificação. "Gosto de ver as pessoas admiradas com a vista. É um lugar maravilhoso de se trabalhar", conta. Ele fabrica peças de reposição na oficina do complexo. Preso por um cinto de segurança, ele costuma viajar sobre os bondinhos. "É muito melhor do que ficar lá dentro. Aproveito a paisagem e a brisa. Sempre que estou estressado, subo e fico feliz."Para comemorar, instalações novas e mais bonitasVeja a galeria de imagens

Agencia Estado,

20 de outubro de 2002 | 11h04

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