Brasil ainda evita aplicação de lei antitortura

Colocaram uma bala no tambor, giraram e apertaram o gatilho. O revólver estava apontado para a cabeça de Bruno, que teve sorte na roleta russa. Havia três dias, ele completara 18 anos. Arrancaram-lhe, depois, parte das unhas com um alicate e deram-lhe marteladas nas mãos. Os torturadores queriam que confessasse o furto de um toca-fitas, mas ele nada falou. Puseram uma corda em seu pescoço e amarraram-na ao pára-choque do carro. Bruno permaneceu calado. Fizeram uma última ameaça: jogaram gasolina em seu tórax e nos braços. Diante do silêncio, atearam fogo e fugiram, deixando-o em um canavial, em Limeira. O rapaz, porém, sobreviveu e identificou os torturadores. Entre os acusados está o dono do toca-fitas, que confessou o crime, ocorrido em dezembro, e um soldado da Polícia Militar. "Bruno tinha problemas com uso de drogas, por isso, pegaram-no", disse Miriam Benvenutti de Andrade, do Conselho de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cedeca). Este caso está entre as 764 denúncias de tortura recebidas pela Ouvidoria da Polícia de 1996 a 2000 - 75% contra policiais civis e 25% contra PMs. O que torna incomum a história é o fato de os criminosos terem sido identificados e processados. Apesar de o Congresso ter aprovado em 1997 a lei que estabelece a tortura como crime, existem apenas 25 processos no Estado por tortura e duas condenações - só em uma os réus eram policiais. Os dados são da Assessoria Especial de Direitos Humanos da Procuradoria-Geral de Justiça.Mais informaçõesLeia Mais:TORTURA NO ESTADO

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