Lucio Bernardo Jr. / Câmara dos Deputados
Lucio Bernardo Jr. / Câmara dos Deputados

Brasil cria estética de integração racial e na prática é segregador, diz pesquisador

Ronilso Pacheco acha que sistema de discriminação no País é pior do que nos Estados Unidos; ele afirma que preconceito não é prática individualizada

Entrevista com

Ronilso Pacheco

João Prata, O Estado de São Paulo

23 de novembro de 2020 | 05h00

No dia seguinte ao assassinato de João Alberto Freitas, homem negro de 40 anos, em uma unidade do Carrefour, as ações do supermercado na Bolsa de Valores fecharam em alta. Enquanto a população negra protestava nas ruas contra mais um crime de racismo no Brasil, o mercado funcionava como se nada ocorresse. Esse foi um exemplo dado pelo teólogo e pesquisador da Columbia University Ronilso Pacheco, ativista no campo dos direitos humanos, sobre como existe um racismo em cadeia no País que não está sendo combatido.  

"O mundo gira, os negros continuam morrendo e isso não faz qualquer diferença. É um grande ponto a ser pensado. Ver como as coisas estão conectadas. Enquanto um homem negro é assassinado, enquanto há milhares de negros na rua clamando por justiça e práticas mais justas, tem um mercado aleatório, completamente desconectado da realidade, da vida. É importante fazer a discussão de racismo que não fique só no que afeta a população negra, mas no tipo de país que a gente quer, nas empresas que a gente quer que opere no país. Todas as coisas devem estar linkadas", afirmou.

"O Brasil consegue criar uma estética de integração racial e na prática, em todas as suas relações, é segregador." Pacheco é formado em Teologia pela PUC-Rio e atualmente está fazendo mestrado em Teologia pelo Union Theological Seminary, da Universidade Columbia. Ele vive nos Estados Unidos com a esposa e a filha de oito meses. Além de comparar como americanos e brasileiros combatem o racismo, na conversa, ele também falou que não basta as instituições e empresas criarem cotas para negros. É necessário uma mudança estrutural, com novas atitudes e práticas antirracistas.

Por que ainda tem gente que diz que racismo não existe no Brasil?

O racismo estrutural se perpetua até de maneira simples. E por ser simples é tão escamoteado e invisibilizado. A primeira coisa é reconhecer o legado escravocrata no Brasil. Estamos nessa situação em que o racismo se tornou naturalizado e muito eficiente. E isso é o que diferencia a prática racista dos Estados Unidos do Brasil. Embora nos Estados Unidos seja mais bem marcado e tem gente que diz que é mais forte, acho que é justamente o contrário. Exatamente pela dissimulação que o racismo se torna mais eficiente. O Brasil consegue criar uma estética de integração racial e na prática, em todas as suas relações, é segregador. Há uma estratificação racial muito forte.

De que maneira o Brasil pode combater o racismo estrutural existente?

Precisamos chamar de racismo estrutural, porque falar só sobre racismo não bastou. As pessoas não estavam entendendo que o racismo não é uma prática individualizada, subjetiva, mas uma estrutura social de funcionamento, que está nas instituições, academias, na saúde, na educação, nas áreas legal e penal. Os mecanismos das forças de segurança foram criados pensando na população negra. 

Nos últimos anos têm se falado mais sobre racismo. Há um movimento mais organizado antirracista. Apesar disso, segundo o Atlas da Violência 2020, as taxas de morte da população negra apresenta crescimento nacional nos últimos anos. Em 2018, o último que tem os dados compilados no documento, 75,7% das vítimas de homicídios são pretas e pardas. Por que existe esse desencontro entre o que se vê e os números?

Ao mesmo tempo que se fala mais de racismo, grande parte da sociedade ainda fala mais na perspectiva individualizada e não como sistema. Mesmo quando você talvez reconheça que determinada ação policial pode ter algum elemento racial, você individualiza aquilo como atitude racista do policial. Você não inclui a instituição, não pensa na estrutura. É bom se falar sobre racismo, deixa mais evidente, mas ele é muito subjetivado.

Há uma naturalização também?

Sim, por mais que ficamos chocados com as estatísticas, esses altos índices de mortes, também estamos falando em muitas ocasiões de negros matando negros. Estamos falando que o policial que vitimiza também é negro. Esse é o grande dilema de debate que não é sistêmico. Enquanto não entender que a estatística é gerada pela maneira como a estrutura funciona, não vamos resolver. Se a gente não olhar para as universidades, é capaz de fazer uma graduação inteira sem passar por um único professor negro. Temos de nos perguntar, por exemplo porque há décadas a gente olha para história do STF e vê que só tivemos um juiz negro? Onde estão os médicos, os grandes economistas, os grandes executivos negros? Enquanto não fizermos essas perguntas, não faz sentido analisar estatística e se chocar com a quantidade de negros mortos.

Não é só uma questão de violência?

É também estrutural. A estrutura gera esse quadro de violência que está na ponta. Quando contamos a quantidade de negros mortos, esse quadro é gerado pela maneira como funciona. Por isso temos estatística grande e não conseguimos mudar. O movimento negro ainda tem de fazer muito esforço para todos entenderem que não é só desigualdade, como diz o presidente, mas um problema que está entranhado na sociedade e em suas instituições.

Um exemplo do que você falou é a maneira como o Carrefour se pronunciou inicialmente após o assassinato. Eles lamentaram e disseram ter afastado os dois seguranças que cometeram o crime.

É uma prática recorrente. Segue um padrão muito usado pela polícia militar, por exemplo. É a justificativa de que um funcionário  se excedeu, que pode se que seja racista ou não. No fim das contas, tudo fica resolvido como caso isolado, de um sujeito contra o outro, sem uma estrutura por trás.

O que pode ser feito pelas empresas para combater e reduzir esse racismo estrutural?

As empresas precisam urgentemente se atualizar para além de políticas afirmativas, que colocam negros dentro das empresas. Primeiro tem de reconhecer o quanto isso é possível pela empresa. Tem de ter ciência de que é inconcebível ter um segurança, um profissional, que na verdade é um policial militar fazendo bico. Tem 400 anos de escravismo, você não vai mudar uma mentalidade em um curso de três meses contra racismo. Isso não é levar o racismo a sério. Tem de ouvir movimento negro, ter um compromisso de prática efetivo, existir um efeito em cadeia, assim como o racismo existe em cadeia.

E o que pode ser feito especificamente em relação ao caso do Carrefour?

O Carrefour é uma empresa que coloca na ponta diversa marcas diferentes. Quem são os fornecedores do Carrefour e o que os fornecedores pensam sobre questão racial? Que tipo de pressão o Carrefour sofreu dos seus fornecedores a partir do exato momento do assassinato. As práticas passam por aí.

No dia seguinte ao assassinato as ações do Carrefour fecharam em alta na bolsa de valores...

Isso é outra coisa, como o mercado funciona, do racismo em cadeia. O mundo gira, os negros continuam morrendo e isso não faz qualquer diferença. Esse é um grande ponto a ser pensado. Ver como as coisas estão conectadas. Enquanto um homem negro é assassinado, enquanto há milhares de negros na rua clamando por justiça e práticas mais justas, tem um mercado aleatório, completamente desconectado da realidade, da vida. É importante fazer a discussão de racismo que não fique só no que afeta a população negra, mas no tipo de país que a gente quer, nas empresas que a gente quer que opere no país. Todas as coisas devem estar linkadas.

Você escreveu um livro Ocupar, resistir, subverter: Igreja e Teologia em tempos de violência, racismo e opressão. O que as pessoas individualmente podem fazer na luta contra o racismo?

Precisa haver um acordo de intolerância de tudo que beira o racismo. Vai desde a nossa mudança de postura a frases que sejam racistas, por mais simples que possam parecer. Precisamos ser mais rigorosos com brincadeiras que possam ser constrangedoras, abandonar algo que já é tradicional e naturalizado. Uma mudança educacional e pedagógica séria, como por exemplo, governos se comprometerem com a lei 10.639 (lei do Brasil que estabelece a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira dentro das disciplinas que já fazem parte das grades curriculares dos ensinos fundamental e médio). Porque isso é uma mudança gradativa de mentalidade na forma de entender a cultura e a história negra. Como uma conversa sobre questão racial fica presente no almoço de família, nos sermões das igrejas, discussão para o dia a dia. São mudanças simples e práticas que podem ser tomadas.

E como as instituições podem mudar?

Precisamos pensar em projeto de país que inclua reconhecimento dos efeitos do legado da escravização e como superá-lo. Falo em políticas de reparação no sentido de enfatizar e fortalecer a comunidade negra. Com muito esforço conseguimos a criação da Instituição Palmares e ela foi absolutamente destruída em questão de meses na gestão Jair Bolsonaro. Isso é pensar em questão de práticas para a gente ter uma sociedade menos racista. É certo que a população negra aprendeu a lidar com o racismo do dia a dia na prática. Se o vizinho for racista posso processá-lo, sair na mão com ele. Mas se a instituição for racista, aí não posso viver nesse lugar. Não posso viver em um lugar que a universidade é racista. Não posso viver em um lugar que a polícia seja racista. Se o hospital for racista, não posso viver nesse lugar. Se os espaços se inclinam para tendências racistas, ele estrangula a possibilidade de as pessoas negras viverem nesse lugar.

 

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