Brasil é despreparado para combater lavagem de dinheiro, diz Blat

A Justiça e os órgãos de investigação estão despreparados para enfrentar a lavagem de dinheiro que sustenta o crime organizado e a corrupção política no Brasil, avaliou hoje o promotor José Carlos Blat, do Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público Estadual (MPE). Para Blat, juizes e promotores cometem erros primários no julgamento e investigação destes crimes financeiros."O país tem instrumentos legais, mas não tem instrumentos operacionais e nem gente preparada para investigar lavagem de dinheiro", acusou ele. "Passados quase quatro anos, ainda não temos sequer uma condenação por lavagem de dinheiro dos envolvidos no caso da máfia dos fiscais, que desviou R$ 13 bilhões dos cofres públicos paulistas".De acordo com Blat, que comandou as investigações da máfia dos fiscais no Ministério Público, este foi um dos poucos casos que foi levantada uma quantidade tão grande de provas contra os envolvidos. "A maioria dos processos esbarra no despreparo do nosso sistema judiciário para lidar com questões financeiras e contábeis", disse ele.Para o promotor, esta incapacidade operacional compromete seriamente o combate à corrupção e ao crime organizado no país. "Países em desenvolvimento são alvos preferidos das máfias internacionais e o Brasil enfrenta hoje o sério problema da corrupção política. Não se realiza um combate real nestas duas esferas da criminalidade sem o combate à lavagem de dinheiro", afirmou Blat.Máfias internacionais estão instalando grandes projetos hoteleiros e turísticos em cidades do Nordeste brasileiro, segundo Blat, o que poderá tornar irreversível a expansão destas organizações criminosas no país. "Estes projetos já são a terceira etapa da lavagem do capital, quando o dinheiro sujo adquire fachada legal", lembrou o promotor. Para ele, o combate à lavagem de dinheiro é fundamental para conter esta fase de expansão do crime organizado."O crime organizado movimenta US$ 1,1 trilhão por ano, já se transformou na oitava economia do mundo, com um PIB igual ao do Canadá", quantificou o promotor. "Não se combate uma estrutura destas com grupos isolados de trabalho." Blat lembrou que o Gaeco, em São Paulo, responsável pelas principais investigações sobre crime organizado feitas pelo Ministério Público no Estado tem apenas cinco promotores.Para o promotor, o despreparo da Justiça reflete o despreparo geral da sociedade brasileira no combate ao crime organizado. "A corrupção política nos municípios, que drena somas incalculáveis dos cofres públicos, é tratada como assunto secundário por todo mundo, inclusive pela mídia. Achaques aos cofres públicos em pequenas cidades do interior são considerados fatos banais, que merecem apenas um pé de página no noticiário dos grandes jornais", avaliou. Blat participou hoje do ciclo de palestras Investimentos Brasileiros no Exterior, promovido pela International Business Comunications, em São Paulo.

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