Brasil fará combustível para submarino

Brasil fará combustível para submarino

Em julho, a Marinha inicia os testes para produção regular do gás hexafluoreto de urânio em 2011, fechando o domínio do ciclo nuclear

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2010 | 00h00

Menos de três meses antes de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciar uma polêmica visita ao Irã, cujo programa nuclear inquieta o Ocidente, o Brasil se prepara para começar os testes de uma usina para produção do gás hexafluoreto de urânio (UF-6), fechando o domínio do ciclo nuclear.

O objetivo da Marinha é produzir, no Centro Experimental Aramar, em Iperó (SP), 40 toneladas por ano do UF-6 para ser enriquecido a quase 20% e gerar material para alimentar o reator do futuro submarino brasileiro a propulsão atômica e, antes disso, para um protótipo de testes.

Hoje, só Estados Unidos, Reino Unido, China, França e Rússia têm submarinos nucleares e fazem o combustível para movê-los - o Brasil poderá ser o sexto desse clube. A Índia também tem um avançado programa na área.

A usina brasileira será acionada em julho, mas só a partir do meio de 2011 começará a operar de fato. Sua produção será suficiente apenas para a Marinha e seu futuro submarino. A planta de Iperó não tem capacidade para suprir as usinas nucleares de Angra 1 e Angra 2, cujo combustível necessita do equivalente a 500 toneladas por ano de UF-6.

"Um reator de propulsão naval tem 1% da potência de Angra 2", diz o superintendente do Programa Nuclear da Marinha, capitão de mar e guerra e engenheiro Luciano Pagano Júnior. "Tem de ser muito compacto, e sua demanda por insumos é muito menor. A usina não é industrial, é uma unidade-piloto."

Decisão política. A Marinha já tem em Aramar equipamentos para enriquecimento e usa neles UF-6 gerado, nos anos 80 e início dos 90, por um laboratório do Ipem na USP.

O País domina a tecnologia para produzir urânio altamente enriquecido(a 20% ou mais), mas tomou a decisão política de fazer urânio de baixo enriquecimento (abaixo de 20%). Isso afasta desconfianças da comunidade internacional.

Um submarino pode ficar vários anos com o mesmo combustível - os dos países centrais nunca o trocam, segundo o engenheiro. A produção brasileira será suficiente para abastecer "uma flotilha" de submarinos nucleares, afirma ele. "Estamos implantando a unidade modularmente."

Pagano explica que a Marinha está "verticalizando" atividades para atender às suas necessidades - ou seja, vai dominar todas as fases do processo. "Em alguns anos, vamos adequar a capacidade." Ele diz que, com o "renascimento" da energia nuclear no mundo, que pode produzir eletricidade sem emissão de gases-estufa, é provável que o material do setor fique mais caro e difícil de obter.

Fiscalização. A movimentação nuclear brasileira ajuda a entender a posição do País em relação ao Irã. Enquanto os Estados Unidos e seus aliados pressionam para que Teerã suspenda seu programa atômico, Brasília tem defendido o direito iraniano ao uso pacífico da energia nuclear.

Diferentemente do Irã, porém, o Brasil, além de ter inserido em sua Constituição um dispositivo que só admite atividade nuclear em território nacional com fins pacíficos e mediante aprovação do Congresso, considera-se em plena sintonia com os controles internacionais. Para Pagano, o País não terá dificuldades internacionais por causa do início da produção do UF-6: "Zero problema."

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