TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Brasil gasta mais com segurança privada que pública, diz BID

Famílias e empresas brasileiras são responsáveis por 47,9% dos gastos com segurança no País

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

04 Fevereiro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Em 5º lugar no ranking de "custos com a violência" na América Latina e Caribe, o Brasil gasta mais com segurança privada do que pública, segundo estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) divulgado nesta sexta-feira, 3. Famílias e empresas brasileiras são responsáveis por 47,9% dos gastos com segurança no País, valor acima da média da região, enquanto os custos do Estado, com policiamento e prisões, por exemplo, representam 36,1% do total - abaixo da média geral. 

O estudo Os custos do crime e da Violência: novas evidências e constatações na América Latina e Caribe analisa gastos de 17 países e os compara com desenvolvidos. "No Brasil, as pessoas não acreditam mais na efetividade policial para prevenir crimes e contrata serviços de polícia privada, sistemas de alarme. Isso tem pesado os custos", afirma Dino Caprirolo, especialista em segurança do BID. 

O BID estima que o custo direto com segurança no País foi de US$ 91 bilhões (R$ 283,5, em valor atual) no ano de 2014, ou 3,78% do Produto Interno Bruto (PIB). Na comparação com os demais, o Brasil só fica atrás de Honduras (6,51%), El Salvador (6,16%), Bahamas (4,79%) e Jamaica (3,99%). Na América Latina e Caribe, os custos somam US$ 171 bi (R$ 532,8 bi). 

Para calcular gastos públicos, os pesquisadores consideraram o custo com polícias, sistema prisional e Judiciário. Já o privado representa o quanto empresas e famílias gastam para se proteger do crime. Na América Latina e Caribe, essas médias são 42,7% e 39,7%, respectivamente. "Seria melhor se não precisasse ter esse gasto, porque limita o desenvolvimento. A estrutura de custo afeta a possibilidade de investimento", afirma o especialista. "Sem ele, daria, por exemplo, para duplicar o investimento em infraestrutura."

O último componente é o "custo social", estimado a partir da renda que deixou de ser gerada por pessoas presas ou que foram vítimas de homicídio. "Para isso, fizemos estudo dos perfis, com idade e gênero, por exemplo", afirma Laura Jaitman, uma das autora do estudo. No Brasil, ele representa 16% dos gastos com violência, de acordo com o BID, ante 17,5% na América Latina e Caribe.

O estudo destaca que a região abriga 9% da população mundial, mas registra um terço das vítimas de homicídios do mundo. "O Brasil é responsável por metade desses homicídios. Seis em cada dez assaltos envolvem violência e 90% dos assassinatos não são resolvidos. As prisões estão entre as mais abarrotadas do mundo", afirma o BID. "Os custos do crime e da violência na região sobem, em média, a 3,55% do PIB na América Latina e do Caribe, comparado com 2,75% nos Estados Unidos, 2,55% no Reino Unido e 1,34% na Alemanha."

Segundo Laura Jaitman, os gastos apontados representam uma "estimativa conservadora". "Consideramos no estudo apenas os custos diretos. Há muitos custos indiretos da violência, como impacto na produtividade, na rotina do local, além do que acontece em termos de educação e saúde", diz. "O estudo ajuda a ver oportunidades de melhor designação dos recursos e a necessidade de o governo melhorar políticas de prevenção e combate à violência".

Heterogeneidade. Para a autora, o Brasil, além do histórico de violência, tem como particularidade as diferenças regionais. Enquanto o Acre gasta 6,3% do PIB com segurança, no Distrito Federal esse índice é de 2%. Abaixo da média nacional, São Paulo aparece com custo do crime e da violência em 2,8%. "Há muita heterogeneidade", diz Laura. Entre as regiões, o Nordeste é quem mais gasta, com 4,11% do PIB, ante 2,93% do Sudeste, que tem a menor média.

Com as maiores taxas de homicídios, as regiões Norte e Nordeste são as únicas em que os gastos públicos superam os privados. Na primeira, as proporções são de 2% e 1,32% do PIB, respectivamente. Na segunda, de 1,76% e 1,66%. Elas também representam os maiores custos sociais, com 0,73%, no Norte, e 0,69%, no Nordeste.

 

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