Brasil não é só futebol. É skate também

Em plena Copa do Mundo, afirmar que o Brasil é o país do skate seria como dar combustível para abastecer uma polêmica sem fundamento. Mas é quase isso. Ainda distante do poder de mobilização do futebol, esse esporte urbano dá sinais de amadurecimento. Atualmente, 2 milhões de jovens praticam skate no Brasil e o excelente desempenho de atletas brasileiros nos campeonatos mundiais elevaram o país ao estágio de segunda potência mundial - ficando atrás, somente, dos Estados Unidos. O crescimento do skate e a profissionalização dos praticantes motivaram Alexandre Vianna, de 27 anos, a criar a Confederação Brasileira de Skate - que foi fundada somente em 1999 e hoje conta com 140 profissionais filiados. "Sentia a necessidade da criação da confederação para elevar o nível técnico, fazer o esporte deslanchar e desenvolver mais credibilidade para atrair patrocinadores", diz Vianna. Para ele, o ano chave para a afirmação do Brasil no panorama mundial do skate foi 2000. "Naquele ano, nossos skatistas tiveram ótimo desempenho e tivemos dois brasileiros campeões dos circuitos mundiais - Bob Burnquist na modalidade vertical e Carlos de Andrade "Piolho" na street." Esporte é o segundo na preferência dos paulistas. Apesar de estar distribuída por todas as regiões do país, a febre do skate tem maior incidência em São Paulo. Segundo pesquisa realizada pela Prefeitura, o esporte é o segundo mais praticado por jovens paulistanos. Perde somente para o futebol. "É uma constatação que é observada no dia-a-dia", afirma Alexandre Youssef, de 27 anos, da Coordenadoria da Juventude da Prefeitura. De olho no interesse crescente por esse esporte, a Prefeitura promete construir até o final de outubro 44 pistas na periferia da cidade e outras 30 dentro de escolas públicas. "Acho que o skate está para o esporte assim como o hip-hop está para a cultura", compara Youssef. "São manifestações marginalizadas que merecem uma atenção e espaço maiores na sociedade." Sem muitas opções de lugares para treinar manobras, os skatistas se viram. Endereços como Vale do Anhangabaú e Praça Roosevelt hoje são pontos de encontro dos praticantes que, usando a imaginação, deslizam sobre bancos, corrimãos e obstáculos improvisados com tábuas de madeira e outros objetos. Até pouco tempo atrás, a marquise do Parque do Ibirapuera e o campus da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) também se transformavam em pistas improvisadas, mas inúmeras proibições acabaram afastando os skatistas desses espaços. A carência de pistas, no entanto, não chega a ser um obstáculo para quem gosta de skate - pois a rua é a melhor escola para vários atletas profissionais. Milton Ferreira Neves, de 24 anos, por exemplo, abraçou o esporte quando percebeu que não dependeria de ninguém para desenvolver suas habilidades sobre o skate. "No Brasil ninguém tem professor, todo mundo desenvolve sua técnica por conta própria", diz. "Eu comecei a praticar na minha rua, no bairro da Saúde. Eu me virava, criava os obstáculos." Uma amostra do talento dos skatistas brasileiros pôde ser vista na primeira etapa do Circuito Brasileiro de Skate Profissional de 2002 - que classifica os 40 melhores colocados entre os 70 participantes para o Circuito Mundial. O torneio, que foi vencido pelo gaúcho Fabiano "Biano" Bianchin, aconteceu ontem e no sábado no Skate House BRZ, em São Paulo, a maior pista fechada da América Latina. O paranaense Danilo Albuquerque "Dândi", 5º colocado no circuito, só lamentou o fato de o evento ter acontecido durante a Copa do Mundo de Futebol. "Agora só se fala em futebol, e o skate acaba perdendo um pouco do espaço que merece."

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