Brasil quer 'privatizar' problemas dos aeroportos, diz Iata

Para entidade, nível de insegurança nos vôos da AL são 'inaceitáveis', apesar da queda no número de acidentes

Jamil Chade, de O Estado de S.Paulo,

01 de abril de 2008 | 21h04

A Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata, na sigla em inglês) acusa o governo brasileiro de simplesmente querer "privatizar problemas" ao vender aeroportos sem qualquer regulação ou investimentos. A entidade que reúne as 240 maiores empresas do mundo alertou que os níveis de insegurança nos vôos latino-americanos são "inaceitáveis" e pede que os problemas sejam resolvidos com "urgência". A Iata ainda acusa governo de ter querido transformar Guarulhos "no aeroporto mais caro do mundo". "A Iata pede que a indústria da aviação na América Latina redobre seus esforços para reduzir as taxas de acidentes", afirmou o presidente da entidade, Giovanni Bisignani. Segundo ele, os índices vem caindo entre 2005 e 2007, passando de um acidente para cada 400 mil vôos para 1 a cada 600 mil. Mas os índices ainda são o dobro da média mundial, com um acidente a cada 1,3 milhão de vôos.  Segundo ele, "ações imediatas são necessárias para corrigir os problemas" e as taxas de acidentes ainda são "vergonhosas para a região". Em sua avaliação, 250 deficiências de segurança foram detectadas nos padrões de vôo em toda a América Latina. "Isso é inaceitável", afirmou Bisignani, alertando para a falta de investimentos e criticando duramente os equipamentos "velhos e insuficiente de controle do tráfico aéreo". Bisignani não poupa o governo brasileiro no que se refere aos investimentos e gestão do setor. "Muitas vezes os governos usam a infra-estrutura como vacas leiteiras", acusou o executivo. "Estamos avaliando os planos de privatização do governo brasileiro para o setor de infra-estrutura. Eles (os brasileiros) vêem isso como uma solução rápida e fácil para a questão de segurança. Mas não é assim. Se você privatizar problemas, como aeroportos em necessidade de investimentos, vai ser necessário regulações fortes para incentivar os investimentos, capacidade adequada, serviços de qualidade e preços competitivos. Caso contrário, os problemas apenas aumentarão", disse.  Para ele, o País precisa adotar padrões de transparência, consultas amplas com os atores envolvidos e fiscalização econômica das decisões. "A região precisa começar a seguir os princípios internacionais. Os governos precisam apoiar a eficiência. Caso contrário, o custo da infra-estrutura irá impedir o crescimento econômico", advertiu. Mais críticas Bisignani ainda faz críticas ao Adicional de Tarifas Aeroportuárias (Ataero). "Somos contra a taxa ilegal da Ataero de 50%", afirmou. "Precisamos convencer o governo a abandonar essa coleta ilegal de US$ 650 milhões", disse. Segundo ele, a indústria também lutou para evitar novas taxas de congestionamento de US$ 180 milhões que fariam de Guarulhos "o aeroporto mais caro do mundo". Não por acaso, o executivo da Iata aponta para o Brasil como "o grande desafio" da entidade.  Para a Iata, o governo precisa entender que investir na aviação traz lucros e anunciou que em 2008 vai trabalhar para melhorar a eficiência nos aeroportos em São Paulo.  No que se refere à segurança, a Iata conta que está implementando uma estratégia com o governo brasileiro, incluindo treinamento para controladores, aulas de inglês, melhoria de infra-estrutura e tentando driblar os problemas de aeroportos sem investimentos adequados. Para acelerar as melhorias na segurança, a Iata ainda pede que os "radares antiquados" sejam substituídos por instrumentos novos, além de tecnologias para evitar acidentes nas pistas de pouso. Alguns dos investimentos reduziriam em 42% o número desses acidentes.  Acordo A Iata ainda comemorou o fato de que o Brasil ter decidido aderir ao programa de auditoria da entidade, que vai fiscalizar a segurança nos vôos e estabelece padrões mínimos. Mais 20 empresas da região também já aderiram ao programa e outras oito estão no processo de ser aceitas. Na América Latina, porém, apenas cinco países fazem parte do programa. Em termos financeiros, a Iata alerta para os riscos de novos prejuízos para o setor na América Latina. Para evitar esse cenário, a entidade pede maior eficiência das empresas e aeroportos, com a difusão de bilhetes com códigos de barra e novas tecnologias para a gestão de malas em grandes aeroportos. "A América Latina precisa acelerar nesse campo", disse, lembrando que o setor emprega 700 mil pessoas na região e gera um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 22 bilhões por ano.

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