AP Photo/Esteban Felix
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Brasil sobe em ranking de igualdade de gênero, mas ainda ocupa a 92ª posição

País sobe três posições com bom desempenho na área da educação e saúde. Dados de participação econômica e política, por outro lado, derrubam nota brasileira. Islândia é o país com maior paridade e Yêmen, o menor

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2019 | 21h50

SÃO PAULO - Relatório divulgado nesta segunda-feira, 16, pelo Fórum Econômico Mundial sobre desigualdade de gênero mostra o Brasil na 92.ª posição - ranking onde a primeira colocação é ocupada pelo país menos desigual e a última, pelo mais desigual -, entre 153 países analisados. A colocação é um pouco melhor que a 95.ª posição alcançada no relatório anterior, e mostra indicadores positivos no acesso à saúde e educação. A participação econômica e o empoderamento político são as áreas onde a diferença entre homens e mulheres são mais intensas, o que joga o País para baixo. 

O relatório elabora um índice que mensura a lacuna entre as oportunidades e serviços disponíveis aos homens e mulheres de países de todas as regiões do mundo. O objetivo, segundo seus organizadores, é chamar atenção para os desafios decorrentes das lacunas de gênero e as chances que podem ser criadas com a redução dessa diferença. A análise, acrescenta o Fórum, deve servir como base para implementação de medidas efetivas. 

O Fórum Econômico Mundial informa que houve avanço no combate à desigualdade de gênero no mundo e isso ocorreu de forma mais espalhada: dos 149 países analisados neste ano e no ano passado, 101 melhoraram a pontuação. O tempo para se eliminar a desigualdade de gênero passou de 108 anos para 99,5 anos, a se manter o ritmo atual. 

O top 10 de países com maior paridade de gênero é formado por quatro países nórdicos (Islândia em primeiro, Noruega em segundo, Finlândia em terceiro e Suécia em quarto), um país latino (Nicarágua, em quinto), um da Oceania (Nova Zelândia, em sexto), três outros da Europa ocidental (Irlanda, em sétimo, Espanha, em oitavo, e Alemanha, em décimo) e um país africano (Ruanda, em nono). 

 
Na parte que dedica ao Brasil, o relatório destaca que apesar de uma melhora em relação ao ano passado, o País permanece com uma das maiores lacunas de gênero da América Latina, ocupando a 22.ª posição entre os 25 países da região, e quase 90 posições atrás da Nicarágua, que teve a melhor pontuação entre os vizinhos. 

“Apoiar a paridade de género é fundamental para garantir sociedades fortes, coesas e resilientes em todo o mundo. Também para os negócios, a diversidade será um elemento essencial para demonstrar que o capitalismo das partes interessadas é o princípio orientador. É por isso que o Fórum Econômico Mundial está trabalhando com as partes interessadas de empresas e governos para acelerar os esforços para eliminar a desigualdade de gênero”, disse em nota divulgada à imprensa Klaus Schwab, fundador e presidente executivo do Fórum. 

O Brasil figura nas primeiras posições de igualdade na área de saúde e sobrevivência. O fato de a expectativa de vida da mulher ser cinco anos mais longeva do que a de homens faz o Brasil se posicionar bem nessa seção. A avaliação também leva em consideração a proporção dos dois sexos em comparação com todos os nascimentos, visando a observar o fenômeno chamado de mulheres desaparecidas, que é ligado a uma prevalência pela escolha de um filho “homem forte” em muitos países. O índice desse setor considera ainda a suscetibilidade à violência, doenças e desnutrição. Nesse índice, a performance da maior parte dos países é similar.

O País também vai bem quando são analisados dados específicos sobre realização educacional. Aqui, são levadas em consideração as taxas de alfabetização e a presença na educação primária, secundária e terciária. O estudo aponta uma paridade completa de gênero nesse quesito no Brasil, condição compartilhada por 35 países, entre eles a Austrália, o Canadá, o Chile e os Estados Unidos. 

O desempenho brasileiro vai na contramão do desenvolvimento quando são observados índices como o de participação econômica e oportunidades. É levado em conta aqui a porcentagem de participação na força de trabalho, a equidade de salários para funções similares e a renda média. O Brasil ocupa a posição 89 da lista, que é encabeçada por Benin, Islândia e Laos. No fim dessa lista estão países como Yemên, Síria e Iraque. 

“A lacuna econômica, que permanece larga, foi estreitada ao longo do ano passado. A baixa taxa de participação feminina como força de trabalho combinada a persistentes diferenças nos salários pesa nesse subíndice para o País”, cita o documento. 

A participação política entre os gêneros também leva o Brasil a uma posição desconfortável. O subíndice mensura a quantidade de mulheres eleitas para o legislativo, as mulheres em cargos de ministro e a quantidade de anos que o país foi comandado por uma chefe de Estado mulher. O País é o 104º, no ranking liderado pela Islândia, Noruega e Nicarágua. 

O estudo lembra que apenas duas das 22 vagas de ministro são ocupadas por mulheres no Brasil, o que coloca o ministério do presidente Bolsonaro como um dos mais masculinos do mundo. O mesmo padrão é notado em meio aos 18% de ocupação feminina no Congresso Nacional

“Para chegar à paridade na próxima década, em vez dos próximos dois séculos, precisaremos mobilizar recursos, centrar a atenção da liderança e comprometermo-nos com metas nos setores público e privado. Continuar a agir da mesma forma de sempre não eliminará a desigualdade entre homens e mulheres – precisamos agir para alcançar o ciclo virtuoso que a paridade cria nas economias e nas sociedades”, disse em nota Saadia Zahidi, chefe do Centro de Nova Economia e Sociedade e membro do Conselho de Administração do Fórum Econômico Mundial.

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