Reprodução/Facebook
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Brasileira relata violência sexual em voo para Londres

Homem sentado ao lado de Juliana Holanda teria se masturbado e tentado tocá-la; vítima denuncia negligência da companhia aérea

Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

13 Agosto 2015 | 15h18

SÃO PAULO - A jornalista brasileira Juliana Holanda, de 33 anos, denunciou esta semana em seu perfil do Facebook um caso de violência sexual que sofreu dentro de um avião, com destino a Londres, em julho. Um homem sentado na poltrona ao seu lado, em um voo da companhia aérea Ethiopian Airlines, teria se masturbado e tentado tocar em Juliana enquanto ela estava descansando. 

A brasileira estuda entrar com um processo por danos morais contra a empresa. Segundo ela, a responsável pelo voo da Ethiopian Airlines chegou a comunicá-la que não adiantava fazer nenhum tipo de denúncia à polícia no aeroporto, pois a jornalista não tinha provas físicas de agressão. No relato, a brasileira conta que passou "alguns dias até ter coragem de escrever" a história. 

Moradora de Natal (RN), a brasileira viajou para Guarulhos (SP), de onde sairia para Londres para fazer um curso de qualificação acadêmica e profissional. De Guarulhos, fez conexão em Addis Ababa, capital da Etiópia. O voo ET 700 da Ethiopian Airlines saiu de Addis Ababa à 1h20 (horário local) e chegou em Londres às 6h50 (horário local). Neste segundo trajeto, em direção ao Reino Unido, Juliana estava há mais de 24 horas viajando e fechou os olhos para descansar. Na poltrona da janela, com número 34L, escutava música com fones de ouvido. 

"Algumas horas após a decolagem, as luzes estavam apagadas para os passageiros dormirem. O homem que estava ao meu lado começou a se masturbar virado em minha direção. Notei o movimento da cadeira e abri os olhos sem acreditar no que estava acontecendo. Nesse momento, ele estava tentando pegar em mim", conta a brasileira.

Em conversa com o Estado, ela relata o descaso que teria ocorrido em seguida por parte da empresa. A jornalista se levantou e foi pedir ajuda aos comissários de bordo. Somente a terceira aeromoça abordada teria se disposto a procurá-la para entender o que havia acontecido. 

"(Ela) começou a me perguntar na frente de todo mundo o que tinha acontecido. Tive que explicar para todos ouvirem. Ela perguntou se eu tinha alguma testemunha e eu disse que não, porque no momento as luzes estavam apagadas. Era um voo de madrugada. Ela perguntou se eu tinha alguma marca no meu braço, para ver se tinha sido agarrada. Eu disse que não. Depois quis saber se eu tinha sido estuprada. Eu disse que não. A mulher disse: 'Ah, então a gente não pode fazer nada porque não tem evidência física. Você precisaria ter sido estuprada ou ter marca de violência'. Ou seja, teria que chegar ao último grau de evidência para eles fazerem algo", relata. 

Juliana disse que perguntou se a companhia não chamaria a polícia quando a aeronave pousasse. Segundo a brasileira, a aeromoça respondeu que "não ia interessar" aos policiais porque "nada de grave tinha acontecido". Sem saber o que fazer, Juliana seguiu para o curso, no interior da Inglaterra, e pesquisou o passo a passo para registrar a ocorrência na polícia. 

Uma semana depois, escreveu para a Ethiopian Airilines. Enviou um e-mail coletivo para mais de 20 endereços. Um funcionário, constrangido, respondeu lamentando a situação e escreveu pedindo desculpas. 

No dia 25 de julho, ela procurou a polícia do Reino Unido, na Heathrow Police Station. A policial que trabalhou no caso conseguiu identificar o agressor, ele foi preso e prestou depoimento. O homem teria dito, no entanto, que passou o voo inteiro dormindo. A polícia informou à jornalista, nesta segunda-feira, 10, que ele foi solto após o depoimento.

Em 30 de julho, após prestar queixa, ela recebeu um e-mail da empresa. "Disseram que a culpa era minha, porque eu que não quis chamar a polícia nem levar o caso adiante", afirmou. 

No e-mail, ao qual o Estado teve acesso, Mistere Tekeste, diretor de atendimento ao cliente da Ethiopian Airlines, afirma que Juliana deveria ter feito uma queixa formal à polícia imediatamente após a sua chegada ao aeroporto. "O nosso dever teria sido o de fornecer as informações solicitadas pela polícia. O incidente não está relatado na chegada ao nosso "Meet & Greet Team" em Londres", disse. Tekeste pede desculpas por "qualquer inconveniente" e conclui: "Lamentamos informar que Ethiopian Airlines não aceita a responsabilidade pelo alegado crime, nem para o trauma que você alega ter sofrido".

Juliana respondeu ao e-mail explicando que a própria responsável do voo havia dito que não procurasse a polícia, pois "não adiantaria". "Eu escrevi dizendo que a situação não tinha sido nada disso, contei o que realmente tinha acontecido e não responderam mais. São bem amadores de tratamento com o cliente", disse. De acordo com ela, com a repercussão do caso, um advogado se dispôs a representá-la em uma ação contra a empresa. 

O Estado entrou em contato com o escritório brasileiro da Ethiopian Airlines, em São Paulo. Um funcionário informou que o assessor de imprensa não estava disponível para atender à solicitação naquele momento e que retornaria a ligação. Até a publicação desta matéria, a empresa não havia se posicionado.

Violência sexual em voo da Ethiopian AirlinesPassei alguns dias até ter coragem de escrever esta história. Sei que é... Posted by Juliana Holanda on Segunda, 10 de agosto de 2015

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