Arquivo Pessoal
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Brasileiro mais velho a chegar ao cume do Everest quer cruzar sozinho o Canal da Mancha

Joel Kriger, de 68 anos, fez história no último dia 15 de maio ao subir o Monte Everest. Rotina de atleta do curitibano começou aos 50

Julio Cesar Lima, especial para o Estadão 

19 de junho de 2022 | 05h00

O curitibano Joel Kriger, de 68 anos, fez história no último dia 15 de maio ao se tornar o brasileiro mais velho a subir o Monte Everest. Kriger já havia tentado subir o pico anteriormente e ainda pretende atravessar sozinho o Canal da Mancha.

“Eu tentei o Everest em 2013, 2017 e 2018. Apesar de ter confiança e preparo, por diferentes motivos não deu certo. Em 2022, nove anos após a primeira tentativa, segui de novo para o Nepal. E para minha alegria, deu tudo certo. Levei 36 dias para chegar ao cume, um processo que exige adaptação ao ar rarefeito e que prepara o corpo para a falta de oxigênio.”

Kriger revela que essa rotina de atleta começou, mesmo, ao completar 50 anos, quando o amigo João Carlos Angelini o convidou para fazer um trekking no campo base do Everest. “Precisava sair do sedentarismo e melhorar minha capacidade aeróbica. Quando jovem pratiquei natação até os 19 anos, mas depois parei totalmente com qualquer atividade física. Lembro que falei com um técnico amigo e ele concordou que me daria um treinamento na piscina pra eu conseguir fazer a caminhada. Treinei de janeiro a outubro, quando seria o trekking. Nosso guia foi o Vitor Negreti, um dos maiores alpinistas do Brasil que morreu em 2006, no Everest”, relembrou.

Depois da primeira experiência, ele pegou gosto e manteve os treinamentos. “Em 2008, combinamos com alguns amigos subir o Kilimanjaro, localizado na África. Em 2010, subi o Aconcágua e defini um projeto: subir as sete montanhas mais altas de cada continente, um dos desafios mais difíceis do alpinismo”, recordou.

Relembrando o feito recente, Kriger destaca a parte final da escalada. “A subida envolve uma sequência de quatro campos até o último dia, que é o ataque ao cume. Era noite de lua cheia, pouco vento e temperatura de 22 graus abaixo de zero, o que dá pra dizer que é agradável, em se tratando do Everest. Em 8 horas saímos do campo 4 e chegamos ao cume, vencendo os obstáculos”, relembrou.

Antes de fazer a subida do Everest, Kriger disse que a vontade foi surgindo naturalmente até se definir um projeto para conquistar o objetivo. “A inspiração foi aparecendo naturalmente. Uma vez que eu defini o projeto, tive que aprender a usar os equipamentos necessários para escalada, apesar de algumas das sete montanhas serem muito mais para “escalaminhadas” do que alpinismo. Não é o caso do Everest: pela sua localização, altitude e clima, chegar lá em cima coroa qualquer atleta da montanha. Foi realmente uma sensação inigualável atingir o topo do mundo”, disse.

Dentro de casa, Kriger recebeu apoio de toda a família, que, apesar dos temores naturais, o incentivou. “A família me apoia e até sente orgulho. Claro, é natural, acompanham com um pouco de receio o desenrolar das minhas atividades. Mas através de um link seguiram passo a passo a subida ao cume do Everest e comemoraram à distância. Houve mais angústia na descida porque só consegui falar com eles três dias depois de chegar ao topo. 

E para piorar, houve um acidente na descida. Logo depois do cume, escorreguei, caí e quebrei três costelas. A dor foi intensa para voltar ao acampamento, mas recebi a ajuda dos sherpas que me acompanhavam e a quem sempre serei grato”, afirmou.

Vida é desafio

Olhando em retrospectiva, Joel afirma que o desafio superado por ele pode ser encarado por qualquer pessoa. “A vida é um desafio, eu tive a chance de compatibilizar as minhas atividades com esses desafios. Eu digo que qualquer um pode subir o Everest. Só não é possível acordar e ir tentar subir o Everest. Como tudo na vida precisa de preparação, planejamento e dedicação. Eu mesmo pratico outros esportes: sou triatleta e já tentei três vezes fazer a travessia do Canal da Mancha. No ano que vem pretendo voltar e tentar mais uma vez. A travessia em equipe eu já fiz. Mas busco cruzar o canal sozinho. E já estou me preparando pra mais esse desafio”, afirmou cheio de otimismo.

Para manter o bom ritmo, Kriger diz que treina diariamente. “Eu treino sistematicamente todos os dias em torno de 4 horas. Para compatibilizar com o meu trabalho começo às 4 da manhã, para às 8h30 estar disponível para a empresa e equipe”, concluiu.

Recentemente, Joel teve um livro lançado: “‘Suba, nade, corra, pedale e aproveite a paisagem’, escrito pelo jornalista Herivelto Oliveira, foi feito para contar minha história no esporte para os meus netos e tentar motivá-los para o que eu faço. Em julho vou levar quatro deles, os mais velhos, para o Kilimanjaro”, disse, sobre mais um projeto em desenvolvimento.

Sobre o mundo atual, em que cresce o interesse pelas diversões virtuais, Kriger disse que procura aliar a modernidade com a natureza. “Eu sou muito digital também, mas não fico 100% do tempo conectado. Temos que dividir as atividades de tal maneira que todos os aspectos sejam contemplados. Eu tenho muita emoção em conseguir os meus objetivos e tento inspirar pessoas de todas as gerações a seguir este caminho. Tudo deve ser dosado de maneira a poder dividir entre a atividade digital e o dia a dia de contato com as pessoas e com a natureza. Como diz o título do livro: é preciso aproveitar a paisagem”, conclui.

 

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