Andre Coelho
Andre Coelho

Brasileiros e venezuelanos vivem sob clima de tensão na fronteira

Alegando preferência de atendimento aos refugiados e suposta escalada da violência, moradores já fizeram ao menos cinco protestos

Felipe Resk, Enviado especial

28 Agosto 2018 | 20h02

Em vídeo gravado nesta segunda-feira, 27, uma senhora brasileira discute com um grupo de venezuelanos. “Somos seres humanos”, grita um imigrante, de mochila nas costas. “Brasileiro não vai lá para roubar”, ela responde. O agravamento da crise migratória fez brasileiros e venezuelanos viverem sob clima de tensão em Pacaraima, cidade de apenas 12 mil habitantes na fronteira com a Venezuela. Às vistas de todos, grupos chegam a bater boca no meio da rua. Alegando preferência de atendimento aos refugiados e suposta escalada da violência, moradores também já realizaram ao menos cinco protestos – um deles terminou com a queimada de barracas e pertences dos refugiados.

O Estado esteve em Pacaraima na semana passada. No centro urbano, é mais comum ouvir pessoas conversando em espanhol do que em português. Por lá, calcula-se que o número de refugiados já seria maior do que a quantidade de brasileiros que vivem em áreas de demarcação indígena, cerca de 5 mil. Com a chegada dos imigrantes, a produção de lixo, por exemplo, aumentou cerca de 70%. Não há aterro sanitário. Sem postos de combustível, os moradores também precisam cruzar a fronteira para abastecer. Também vem da Venezuela o fornecimento de energia elétrica.

"Não tem mais recuperação”, diz José Carlos Barbosa, de 52 anos, dono de um pequeno armazém no centro de Pacaraima. Ele culpa os venezuelanos por uma suposta onda de furtos na cidade. “Todos os comerciantes já foram roubados”, reclama. A reportagem solicitou ao governo de Roraima na semana passada estatísticas sobre crimes registrados no período, mas não obteve resposta.

Funcionária de Barbosa, a venezuelana Elienny Romero, de 32 anos, também é da opinião que os compatriotas estariam criando uma crise na cidade. “A maioria das pessoas daqui está se aproveitando dos brasileiros”, diz. Ela mora na cidade há dois anos e está casada com um brasileiro. Dezenas de venezuelanos passam o dia sentados nas calçadas, olhando as lojas. Outros pedem esmola. Muitos, entretanto, estão só de passagem: na rodovia para Boa Vista – federal, agora sob atenção das Forças Armadas – é possível ver refugiados viajando mais de 200 quilômetros a pé até a capital do Estado.

Barracas

Recentemente, os refugiados haviam montado um acampamento que ocupava ao menos duas quadras do centro de Pacaraima. Elas foram destruídas em um “ato” no sábado passado. Na ocasião, um carro de som chegou a circular pelas ruas pedindo para “expulsar os venezuelanos”.

O episódio aconteceu depois de o comerciante Raimundo Nonato de Oliveira, de 55 anos, ter sido assaltado, torturado e reconhecido os criminosos como venezuelanos. O Ministério Público de Roraima investiga, ainda, se a vítima deixou de receber atendimento médico adequado, após a ambulância demorar a socorrê-lo.

Com o “protesto”, cerca de 1,2 mil venezuelanos deixaram o Brasil e o número de imigrantes caiu. Hoje, grupos de refugiados chegam a cruzar a fronteira para Santa Elena à noite para dormir em segurança. De dia, voltam para Pacaraima. “Está violento da parte dos brasileiros”, diz Adrian Barrios, morador de Santa Elena. “Eles não entendem que os venezuelanos são refugiados e, por isso, devem receber proteção internacional. Estão muito intolerantes, não entendem a situação.”

Antes do episódio, os moradores de Pacaraima haviam feito três manifestações pacíficas para “alertar autoridades”. Há uma semana, carros e motos voltaram a fazer um buzinaço na cidade, em novo protesto. “Não somos selvagens”, diziam os cartazes. “Não somos xenófobos, só não aguentamos mais a situação”, é a frase mais comum entre os moradores. 

 

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