Brasileiros investem no luxuoso mercado de imóveis de Paris

Paulistas são os maiores compradores nacionais dos apartamentos do ?triângulo de ouro? da capital francesa

Andrei Netto, O Estadao de S.Paulo

05 Outubro 2008 | 00h00

Se ter casa própria é desejo de todo brasileiro, pode-se dizer que alguns levaram a ambição ao extremo - pelo menos até o começo da crise econômica. Eles fazem parte de uma clientela exclusiva, quase um clube de estrangeiros de elite, que, por possuírem fortunas ou excelente senso de negócios, registraram seus nomes como proprietários de imóveis em Paris, uma das capitais mais caras do mundo. Por ano, cerca de 30 imóveis são adquiridos na região de Île de France, em especial por paulistas. O número pode não impressionar, mas as cifras espantam: há cada vez mais apartamentos de 4 milhões, 6 milhões e até 10 milhões nas mãos de brasileiros - isso equivale a até R$ 28 milhões. O levantamento foi feito para o Estado por diferentes agentes imobiliários especializados em luxo - ou "prestige" -, como Belle Demeure, representante da companhia de leilões britânica Christie?s em Paris. "A clientela brasileira sempre esteve presente, mas de um ano para cá há detentores de grandes fortunas comprando apartamentos na cidade", conta Marie-Helène Lundgreen, diretora da empresa, hegemônica no segmento de alto custo, com 60% do mercado. "É em especial gente de São Paulo, à procura de bons imóveis, com pé-direito alto e em bairros renomados, muito freqüentados por estrangeiros." A presença de milionários forasteiros em Paris está mais diversificada. Até o início da década, italianos, ingleses, suíços, americanos e árabes transitavam quase que exclusivamente pelo mercado de imóveis "de prestígio" na cidade. Hoje o cenário é diferente. Russos, eslavos e latino-americanos - venezuelanos também são público crescente - fazem parte da ciranda. "Os brasileiros, homens e mulheres de negócios, em geral, são elegantes e simpáticos. Muitos falam francês com fluência, ficam em bons hotéis, conhecem bem a cidade e têm imóveis em outras grandes capitais, como Nova York e Miami", define Marie-Helène. Esses clientes buscam apartamentos no chamado "triângulo de ouro" de Paris, que inclui bairros como Marais, Île de Saint-Louis, Luxembourg e Champ-de-Mars - onde estão a Torre Eiffel e ruas "eleitas" no 4º, 5º, 6º, 7º, 8º e 16º distritos. Nesses endereços, o preço do metro quadrado raramente fica abaixo de 6 mil, podendo superar os 15 mil. "Neste ano tivemos vendas de 4 milhões, 6 milhões e 10 milhões. Eles não hesitam em pagar caro pela vista do Sena ou pela Avenue Montagne", diz a agente, referindo-se a uma das cinco avenidas que encontram o Arco do Triunfo. Também há imóveis, digamos, "mais acessíveis". Nathalie Naccache, diretora da Fortis-Immo, descreveu a venda de um apartamento de dois quartos e 70 metros quadrados na Rue de La Paix, comprado neste ano por 700 mil. O imóvel foi adquirido por uma brasileira e se situa em um antigo hotel de luxo transformado em condomínio "não muito longe da Praça Vendôme", um dos endereços mais caros de Paris. "Nos bons bairros, são sobretudo os compradores russos, do Golfo Pérsico e de países emergentes da América do Sul e da Europa do Leste que fazem crescer os leilões", confirma Charles-Marie Jottras, presidente da Daniel Féau, imobiliária especializada em luxo. Embora todo corretor de imóveis de alto custo tenha notícias de compras recentes por brasileiros, arrancar um testemunho desses clientes é tarefa exaustiva. Em geral, são discretos e avessos à imprensa, muitas vezes impondo às agências a obrigação de manter o segredo sobre o proprietário. "Muitos pedem sigilo porque compraram imóveis sem informar às autoridades fiscais de seus países", afirma Corinne Scemama, jornalista especializada no setor da revista semanal L?Express.

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