Brasília: ideia bem planejada e mal conduzida

O Brasil sempre implantou cidades "novas". Nos primeiros séculos de colonização, com projetos de engenheiros militares. No final do século 19, Belo Horizonte inaugura a adoção de padrões modernos de traçado, seguida por Goiânia. As cidades das fronteiras agrícolas do início do século 20 continuaram essa tendência, com grande sucesso.

Lúcio Gomes Machado*

19 de abril de 2010 | 20h10

 

O esforço de reconstrução após a Segunda Guerra levou a Inglaterra a implantar uma rede de "cidades novas". No mesmo período, Chandigarh, capital do Punjab, na Índia, seria construída com projeto de Le Corbusier, autor também de seus edifícios monumentais. Inspiraram os planos dessas cidades as teses discutidas nos "Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna", realizados na primeira metade do século, com a participação dos mais eminentes arquitetos e urbanistas.

 

Na mesma linha, Brasília foi planejada por Lucio Costa, sendo seus edifícios institucionais projetados por Oscar Niemeyer, ambos considerados referências fundamentais para o urbanismo e arquitetura modernos.

 

Mas Brasília merece um destaque especial. Trata-se do maior empreendimento de implantação de cidade nova no século 20 observado no mundo. O fato de ser capital de um país a coloca em categoria de ainda maior excepcionalidade, enfatizada pela originalidade e qualidade de seus espaços.

 

Lamentavelmente, sua implantação foi mal conduzida, deformando muitas das propostas originais. Os governos militares e uma sucessão de governos locais populistas - consequentemente avessos ao planejamento - incharam a capital e suas cidades satélites, tornando o Distrito Federal semelhante, em muitos aspectos, às piores aglomerações urbanas brasileiras. Mas, mesmo com tais problemas, ainda é uma das nossas cidades com melhor qualidade de vida.

 

A lição que esta experiência nos proporciona é que, além de projetar cidades com a melhor arte e técnica, é também imprescindível saber implantá-las e, sobretudo, exercer sua gestão de modo tão avançado quanto eram os conceitos que subsidiaram a sua concepção.

 

A aversão dos nossos governantes ao planejamento e a prática de gestão atendendo a catástrofes, a demandas imediatas ou intermediadas por interesses eleitoreiros, geraram cidades caóticas como São Paulo.

 

É preciso rever nossas políticas e retomar o conhecimento que temos desperdiçando nas últimas décadas. Nossa sobrevivência estará ameaçada se não revigorarmos as cidades brasileiras com arquitetura e urbanismo de qualidade.

 

* O arquiteto Lúcio Gomes Machado é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

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