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Juvenal, cujo irmão deu início à briga, opôs-se às vinganças contra os Oliveiras e foi o único de sua geração que restou entre os Veras Lourival Sant'Anna/Estadão
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BRIGA DE FAMÍLIAS CRIA CIDADE MAIS VIOLENTA

Matança entre Veras e Oliveiras, iniciada com desentendimento há 20 anos, deixou mais de cem mortos em Brejo dos Santos e região

Lourival Sant'Anna, BREJO DOS SANTOS (PB)

07 de fevereiro de 2015 | 18h29

“Justiça primeiramente é a de Deus. A segunda é a que você faz com as próprias mãos. Porque polícia não faz nada, não.” A frase é de uma jovem mãe cujo irmão foi morto só porque ela é casada com um integrante da família Veras, envolta em uma sangrenta cadeia de vinganças que já dura 20 anos. Ela sintetiza a mentalidade e a dinâmica da briga entre os Veras e os Oliveiras, na pacata cidade de Brejo dos Santos, de 6 mil habitantes, perto da divisa da Paraíba com o Rio Grande do Norte. Iniciada com um mal-entendido em um bar do mercado, a briga já matou mais de cem pessoas, e tornou Brejo dos Santos a cidade mais violenta do Brasil.

A pequena cidade não tem problemas de roubos nem de drogas – que usualmente levam a mortes violentas. Mas, em 2013, registrou 13 homicídios, o que representa 217 por 100 mil habitantes – mais do dobro do país mais violento do mundo, Honduras. Levantamento do Estadão Dados mostra que esse foi o índice mais alto do Brasil, segundo os registros do Sistema Único de Saúde em 2013 – a estatística mais atual, recém divulgada. 

A briga começou em 1995, no Bar do Alvino, no mercado da praça central. O delegado da cidade, Grimalcy Mesquita, um cabo da Polícia Militar, veio ordenar que Pedro Veras de Sousa e dois sobrinhos dele parassem de beber e fossem embora, alegando que tinha sido informado de que eles estavam armados. Os três pediram a conta e se preparavam para sair quando chegou o pai de Grimalcy, Silvino. Ex-soldado da PM, patriarca da família Oliveira, Silvino andava com um chicote pela cidade, e foi mais rude do que seu filho. Os Veras dizem que ele chegou atirando. Pedro reagiu, matou Silvino e baleou o delegado. Um sobrinho dele também ficou ferido. 

A partir daí, começou o derramamento de sangue. Até mesmo Alvino Oliveira, o dono do bar, foi morto por membros de seu clã, como punição por ter acolhido os Veras. Em 2003, uma desavença levou a própria família Oliveira a se dividir em duas facções – uma delas com negócios na Rua 25 de Março, em São Paulo, e a outra de volta à Paraíba –, multiplicando as mortes.

A guerra se espraiou também por Catolé do Rocha, cidade de 29 mil habitantes a 10 km de Brejo dos Santos, onde vivem membros de ambas as famílias. No ano passado, a cidade teve 20 homicídios, o que resulta em 69 por 100 mil habitantes, índice bastante elevado. E faz também vítimas inocentes. Em setembro, um rival veio matar o vendedor Alexandre de Mesquita (da facção local dos Oliveiras), na porta de um mercadinho, a poucos metros de onde seu pai foi morto em 2011. Alexandre, de 34 anos, conseguiu fugir, mas o dono do mercado, José Vieira, com quem conversava, e que não tinha nada a ver com a briga, foi morto com um tiro nas costas. 

Um tio de Alexandre, Marcelo Mesquita, morreu queimado assim que ingressou no presídio de Patos (PB). Seu irmão, Kelson, foi assassinado junto com a mulher, enquanto dormiam num sítio, um mês depois de sair da cadeia. A irmã de seu pai, a aposentada Luiza Batista de Mesquita, de 63 anos, é a única de sua geração que não foi morta ou presa. Ela perdeu 11 parentes, incluindo dois tios, quatro irmãos e um sobrinho. Duas irmãs e uma sobrinha estão presas, acusadas de envolvimento em assassinatos. “Quero justiça”, pede Luiza. 

Escrivã morta. Do outro lado, Juvenal Veras, de 78 anos, irmão de Pedro, dono de sítio e de posto de gasolina, teve 14 parentes próximos mortos. Ele é conhecido na cidade por ter resistido às pressões de seus familiares por vinganças contra os Oliveiras. “Nunca discuti com nenhum deles. O Grimalcy era muito meu amigo”, conta Juvenal, único sobrevivente de sua geração. Até mesmo uma escrivã da polícia, Fátima Veras da Silva, foi morta em dezembro de 2013, em Catolé do Rocha.

Em 2011, as polícias militar e civil da Paraíba realizaram uma operação chamada Laços de Sangue. Com base em escutas telefônicas, 15 pessoas foram presas por suspeita de envolvimento em homicídios – incluindo João Gomes da Silva, conhecido como João da Guarda, porque tem uma equipe de quatro vigilantes particulares na cidade, para clientes comerciais e residenciais. Acusado de matar Erivan Batista Mesquita, irmão de Luiza, João ficou 3 anos preso, e foi absolvido pelo júri por 4 votos a 3. “Eu trabalhava à noite, e estava dormindo quando o Erivan foi morto. Foi minha mulher quem veio me contar”, afirma ele.

No ano passado, os homicídios caíram de 13 para 5. No seu auge, em 2013, a Polícia Militar chegou a aumentar o efetivo em Brejo dos Santos de dois para dez policiais, apoiados por duas viaturas, lembra o tenente Edmundo Tavares, coordenador de Policiamento Urbano em Catolé do Rocha. A situação se acalmou e o efetivo voltou para dois policiais. Ainda não houve nenhum homicídio este ano em Brejo dos Santos. Já em Catolé houve três – o terceiro, no dia 24, de um agente de saúde envolvido em uma briga entre outras duas famílias de Brejo dos Santos, segundo um investigador da Polícia Civil. 

A polícia se queixa da dificuldade inerente de apurar esse tipo de crime. Parentes das vítimas evitam denunciar os autores, não só por medo, mas também para não recaírem sobre eles as suspeitas de uma vingança que já estejam tramando. “Mesmo com o reforço, a gente não conseguia impedir, porque os crimes aconteciam em locais às vezes inesperados – um sítio, uma roça –, e quando a gente saía em diligência para fazer o levantamento de uma denúncia, eles aproveitavam aquele espaço deixado aberto”, conta o tenente. “A população em geral não estava ajudando a PM, até porque eles queriam que a polícia saísse do cenário para continuar esse ciclo de vingança.”

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