Brigona, ela não tem meias palavras

No discurso de despedida da pré-candidata Dilma Rousseff do governo, há pouco mais de dois meses, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma pequena lista de ministros e poderosos presidentes de estatais com quem a então chefe da Casa Civil havia se desentendido na passagem pelo Planalto. "Alguns saíam da tua sala e iam à minha sala se queixar de que você tinha maltratado ele, que tinha sido muito dura com ele", contou Lula.

Marta Salomon / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2010 | 00h00

A lista das "vítimas" poderia ser maior. "Só o presidente e o vice não apanharam dela", arrisca um ex-assessor. Nas últimas semanas, o Estado ouviu gente não só do primeiro escalão sobre o estilo Dilma de governar. Não foram raros os relatos de momentos de exaltação e de gritos da então ministra. Muita cobrança em telefonemas a qualquer hora do dia, em jornadas de 11 horas de trabalho e nos fins de semana.

"É comum as pessoas reclamarem do gênio dela, tem gente que fica chateada, é uma mulher durona", disse o ministro Sergio Rezende, da Ciência e Tecnologia. Entretanto, ele considera que o método Dilma é eficaz. "Não conheço quem não reconheça a capacidade de gestão dela e, na política, ela deve estar aprendendo a ter jogo de cintura", observou o ministro.

Berros. O estilo Dilma está longe de ser uma unanimidade. O caso de desavença mais notório aconteceu em junho do ano passado e levou ao pedido de demissão do secretário executivo do Ministério de Integração Nacional, Luiz Antonio Eira.

Estavam em discussão as obras da Ferrovia Transnordestina. O cronograma original havia atrasado. E seria necessário um ajuste para que o projeto pudesse receber dinheiro da Sudene. "Quando eu falei isso, ela se levantou aos berros da mesa dizendo: "se o ministério acha que vai ficar com esse dinheiro, isso não acontecerá nem por cima do meu cadáver"", relatou o segundo na hierarquia da Integração Nacional.

"Tentei argumentar que era uma questão técnica, mas ela berrava mais ainda e a reunião terminou ali", disse Eira. Nas horas seguintes, ele abriu mão da chance de ocupar a cadeira do ministro meses depois. "Presenciei várias vezes seus arroubos, vi técnicos serem humilhados", justificou.

Antes desse incidente, Dilma já teria aumentado o volume da voz com o próprio ministro da Integração, Geddel Vieira Lima, em uma das reuniões de coordenação do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Geddel reagiu, disse que ambos eram ministros e ele ainda tinha um mandato de deputado, o que lhe dava vantagem na comparação. Selaram a paz e ela passou a chamá-lo de "paixãozinha".

O jeito duro de fazer cobranças é uma marca da candidata. Que o diga o presidente da Petrobrás, Sérgio Gabrielli, que recebeu um telefonema dela no fim de 2008, em plena crise financeira global. "Gabrielli, a Petrobrás também está metida nos derivativos? Se estiver, eu furo seus dois olhos." A ameaça era irônica pela impraticabilidade, mas os mais próximos avaliam a atitude como uma mostra de como ela exerce o comando.

Bototerapia. Alguns ministros encontraram no bom humor a única forma de enfrentar os humores de Dilma. Paulo Bernardo, do Planejamento, ensaiou uma paródia do "bate que eu gosto" para desarmar a colega. Carlos Minc, ex-ministro do Meio Ambiente, uma vez sugeriu que ela se submetesse a sessões de bototerapia - nado com botos, atividade a que se atribuem efeitos terapêuticos.

Os embates entre Minc e Dilma ocorreram até diante das câmeras, em dezembro do ano passado. Já apontada como futura candidata do PT à Presidência, Dilma fora escolhida chefe da delegação brasileira na conferência do clima, em Copenhague. O ambiente era tenso por divergências na equipe. Na primeira entrevista, Dilma não queria deixar o ministro falar. À saída, Minc apelou: "Calma, Wanda!" Esse foi um dos nomes que ela usou quando ambos eram militantes de esquerda e faziam oposição ao regime militar.

As reuniões preliminares da cúpula do clima dão uma ideia do estilo Dilma. A então chefe da Casa Civil se opunha a que o Brasil levasse metas de corte das emissões de carbono para Copenhague. Acatou a decisão do presidente, mas pouco antes do anúncio das metas, mandou mudar o porcentual de redução do desmatamento do Cerrado, de 60% para 40%, que já havia sido negociada previamente. E foi feita sua vontade.

Bordão. As brigas com números foram muitas no governo. Dilma Rousseff olhava as planilhas levadas por técnicos e ministros e dizia: "Isso aqui está errado!" E mandava repetir os estudos. "Meu filho, desse jeito não dá" é um bordão que muitos relatam ter ouvido.

"Ela está sempre com aquele laptop e checa tudo", conta o ministro Guilherme Cassel (Desenvolvimento Agrário). Ele testemunha também que Dilma é desse jeito desde antes de chegar a Brasília, quando ainda trabalhava como servidora pública no Rio Grande do Sul. "As pessoas não estão acostumadas com esse grau de seriedade e de rigor", teoriza Cassel.

Aos novatos, os mais acostumados ao estilo ensinam: se a conversa começar com um "veja bem", sinal de enrolação, o interlocutor terá poucas chances com Dilma. "Se puder falar em três linhas, não se alongue, e, se não tiver as informações bem checadas, desista", resume o ministro Márcio Fortes (Cidades).

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