Brincar de ser mãe não resolve

A educação sexual deve trabalhar emoções, aspirações e construção de projeto de vida

Jairo Bouer*, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2016 | 03h00

Novo estudo publicado na última semana mostra que brincar de ser mãe usando bonecos que imitam um bebê não resolve a questão da gestação na adolescência. Pelo contrário, a brincadeira pode ter aumentado o número de garotas que engravidaram. A questão é, claramente, muito mais complexa do que essa simulação.

O trabalho, feito pela Universidade Western Australia, publicado no periódico médico The Lancet e divulgado pelo jornal inglês Daily Mail, acompanhou 3 mil garotas entre 13 e 15 anos. A teoria do método é que “cuidar” de uma boneca por alguns dias, com necessidades semelhantes às de um bebê real, que precisa comer de tempos em tempos, chora se não recebe atenção adequada e deve ser trocado várias vezes ao dia, serviria como alerta para as garotas sobre o quanto é difícil ser mãe. 

Esse tipo de trabalho de prevenção, que tenta trazer senso de responsabilidade para as crianças, é usado por professores ao redor do mundo. No Brasil, algumas escolas até trocam a boneca (que pode custar cerca de R$ 5 mil) por pequenos animais como pintinhos e coelhos, entre outros, que devem receber cuidados várias vezes ao dia. 

Mas o trabalho sugere que, além de não funcionar, a estratégia pode ter efeito contrário. Segundo os pesquisadores, a atenção extra que as meninas que cuidam dessas bonecas recebem dos pais e amigos pode fazer com que elas tenham um desejo aumentado de se tornar mães precocemente.

No estudo, metade das meninas teve de cuidar de uma boneca por 6 dias e a outra metade recebeu apenas aulas convencionais de educação sexual. As garotas foram acompanhadas até os 20 anos. Das meninas que cuidaram da boneca, 8% engravidaram e 9% tiveram um aborto. Entre as que não tiveram essa responsabilidade, 4% engravidaram e 6% tiveram um aborto.

No Reino Unido, diversas regiões usam as bonecas nas escolas como parte do projeto de prevenção da gravidez. E os resultados, também, não são muito animadores. Bom lembrar que, graças a uma política muito mais ampla e integrada de educação sexual e saúde pública, focada na questão da gestação na adolescência, o país conseguiu recentemente alcançar as taxas mais baixas dos últimos 70 anos. 

Um projeto mais amplo e efetivo de educação sexual trabalha não apenas sexo e biologia, mas também questões de relacionamento e emoções, aspirações e construção de projeto de vida e métodos de prevenção, entre outras.

No Brasil. Por aqui, embora as taxas de gestação na adolescência estejam caindo nos últimos anos, a queda não é igual nas diversas regiões do País – nem mesmo nos diferentes territórios de uma mesma cidade. O que se vê é que as garotas de comunidades mais carentes e das regiões com piores indicadores sociais alcançam resultados mais precários. O grupo das mais novas, com menos de 15 anos, enfrenta situação ainda mais crítica.

Diferentemente dos países europeus, ainda há por aqui questões de ordem econômica, social e cultural que devem ser endereçadas. Não adianta apenas garantir insumos gratuitos de prevenção de gravidez (pílulas e camisinhas nos postos de saúde) sem trabalhar autoestima, maior poder feminino e construção de um projeto alternativo de vida. Não dá para afastar a escola dessa discussão mais profunda nem ficar apenas brincando de ser “mãe” de boneca e de pintinho.

Enquanto a maternidade ocupar na cabeça dessas meninas posição central em seu projeto de vida e um status de reconhecimento social, essas taxas vão demorar a cair nos grupos de maior vulnerabilidade e risco. E essas garotas vão continuar a se afastar cada vez mais da escola e da estruturação de um núcleo familiar mais estável com o pai da criança. Vamos dar uma chance de um futuro diferente para essas garotas? 

* JAIRO BOUER É PSIQUIATRA

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