Brown abre carnaval de Salvador e lança os ´sem-abadá´

No ano passado, Carlinhos Brown causou frisson no carnaval de Salvador. Não por inovações artísticas, mas por parar seu show sobre o trio e cobrar do ministro da Cultura, Gilberto Gil - que assistia ao desfile de seu camarote, o Expresso 2222 -, mais educação para a população. Crítico feroz da "elitização" do carnaval na Bahia, para este ano Brown promete mais. O cantor, compositor e percussionista abriu oficialmente, na noite de quinta-feira, 15, a folia baiana, com uma apresentação no bairro periférico de Cajazeiras. Carlinhos Brown tem quatro músicas candidatas a hit - a eleição mais importante na folia de Salvador. Versátil, lançou-se como pintor, sem maiores pretensões do que ter mais um meio para se expressar. "Penso o tempo todo em imagens. Músicas são imagens na minha cabeça." Mas é ao inaugurar um novo conceito de bloco que ele realiza um sonho antigo de carnaval democrático. O novo conceito é chamado de Pipocão em referência aos "sem-abadá", os foliões-pipoca. O Pipocão vai funcionar assim: Brown mandou confeccionar 30 mil tiaras com uma representação de pipoca anexada a elas e entregou para organizações não-governamentais (ONGs) fazerem a distribuição em comunidades carentes. O bloco sai com quem aparecer, na segunda-feira, dia do orixá Obaluaê, que tem como um de seus símbolos a pipoca. "Com isso, queremos fazer o maior bloco do carnaval baiano." Apesar da iniciativa, Carlinhos Brown garante que não tem nada contra os blocos com abadá. "Nada mesmo. Eu só tenho algo contra a alienação, com o fato de as pessoas não verem o que está acontecendo ao redor delas." Apenas um carnavalesco Além do Pipocão, o músico também reformou, com recursos próprios (não diz quanto), o antigo Mercado do Ouro, construção histórica do tradicional bairro do Comércio, e se prepara para lançar ali o Museu du Ritmo - que vai virar um novo espaço para festas carnavalescas, chamado Baile do Bloco Parado. O local vai funcionar de sexta a terça-feira, com a presença de gente como Daniela Mercury, Margareth Menezes, dos integrantes da Timbalada e do Babado Novo, Zélia Duncan, Arnaldo Antunes, Pitty e Chico César. Com tudo isso, Carlinhos Brown não aceita a idéia de que este é o carnaval de Carlinhos Brown. "De jeito nenhum! Sou apenas um carnavalesco, e carnavalescos têm como função trazer novidades sempre." Mas a função dele, como assume, é um pouco maior. Citando Chacrinha ("Dizia que veio para confundir"), Brown diz que veio para "mostrar as feridas". O dedo em riste, porém, não é só acusatório: "Vim para mostrar as feridas e, de certa forma, tentar ajudar a curá-las", acrescenta, fazendo uma referência ao atrito com Gil em 2006, que ele garante que não foi briga. "Ele é meu irmão, continua sendo, mas a gente precisa promover o debate. Quer criticar, critica, mas não esconde. Não finja que está tudo bem." Brown combate as cordas dos blocos pagos. "Elas não combinam mais com a nossa história", afirma. "A gente poderia privatizar o carnaval como um todo. Todo mundo pagaria R$ 3 para participar, em vez de um ou outro pagar R$ 300 pelo abadá. No fim, a arrecadação seria maior e todo mundo poderia brincar a festa em igualdade."

Agencia Estado,

16 Fevereiro 2007 | 10h50

Mais conteúdo sobre:
carnaval carnaval 2007

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.