Mauro Pimentel/AFP
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Brumadinho: Documentos mostram que Vale sabia de risco elevado de colapso da barragem desde outubro

Documento da mineradora repassado ao MP mostra dez estruturas em estado de atenção por problemas estruturais; no reservatório que rompeu, havia ameaça de erosão e liquefação

Júlia Marques e Renata Batista, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2019 | 10h07
Atualizado 13 de fevereiro de 2019 | 00h38

RIO - A Vale já sabia, desde outubro, que a barragem que rompeu em Brumadinho e outras nove estruturas em Minas Gerais estavam enquadradas em uma categoria de alerta. Essa informação consta de um documento da própria empresa sobre a situação dos reservatórios que a Justiça tornou público nesta terça-feira, 12. Os dados foram obtidos pelo Ministério Público (MP) de Minas, que moveu ação contra a mineradora. A empresa diz que as informações são “probabilidades” e não houve nenhuma detecção prévia de falha nos monitoramentos.

O MP-MG solicitou à Vale, no dia 31 de janeiro, seis dias após o rompimento da barragem, informações do setor de gestão de risco geotécnico da empresa. De 57 barragens avaliadas, 10 estavam enquadradas na chamada Zona de Atenção (Alarp Zone). O MP diz que havia “severo risco de rompimento”.

A metodologia é usada internacionalmente para medir o quão aceitáveis são os riscos de uma barragem. Estruturas enquadradas na Alarp Zone são aquelas em que o risco é tolerável apenas se a redução for impraticável ou o custo for desproporcional à melhoria obtida. A barragem de Brumadinho, cujo colapso deixou até ontem 165 mortos e 155 desaparecidos, estava nessa categoria. 

A Vale informou que laudos de estabilidade não indicavam risco iminente em Brumadinho nem elevação do nível de água. Disse ainda que a metodologia usa padrão mais rígido que as leis nacional e internacional. 

Segundo os documentos apresentados pela Vale ao órgão, além dessa, as barragens de Laranjeiras, em Barão de Cocais, Menezes II e IV, também em Brumadinho, a Capitão do Mato, Dique B e Taquaras, em Nova Lima, e Forquilha I, II e III, em Ouro Preto, estavam na mesma categoria de atenção. 

“Todas elas são próximas a núcleos urbanos, havendo residentes/transitando na zona de autossalvamento”, indica o documento do MP. No caso de Brumadinho, dados da Vale atestam a possibilidade de erosão interna e liquefação, causa apontada pela investigação da Polícia Federal como a principal hipótese para o desastre. 

A liquefação ocorre quando o volume - ou a pressão da água na barragem - aumenta por algum motivo. O fenômeno foi responsável, por exemplo, pela tragédia em Mariana, em 2015. 

A possibilidade de problemas na barragem de Brumadinho, segundo a própria Vale, era de 0,02%. Em comparação com as demais na Alarp Zone, essa estrutura estava entre as três com menor risco da lista. Nas três barragens de Nova Lima, na Grande Belo Horizonte, o risco é de 0,1%, cinco vezes maior. 

Alerta.

O material da Vale traz ainda gráficos que mostram o “potencial de perda de vida” dessas barragens. Em cenário sem alerta à população, o número de atingidos pode chegar a mil. Já em cenário com alerta, nas mesmas estruturas, esse número seria de, no máximo, dez. Em Brumadinho, não houve acionamento das sirenes - segundo a Vale, elas foram engolidas pela lama. “Isso demonstra a absoluta necessidade da adoção de medidas imediatas (...) sob pena de eventos similares”, indica a Promotoria. 

O documento embasou decisão judicial no início do mês, que determinou que não haja atividades que possam aumentar o risco nas outras nove barragens. A Justiça determinou que a Vale apresente relatório por auditoria independente sobre a estabilidade das estruturas e informe eventual elevação de riscos de colapso. Também impôs multa diária de R$ 1 milhão em caso de descumprimento. 

A decisão levou a Vale a suspender a produção da mina de ferro de Brucutu, a maior do tipo no Estado, em Barão de Cocais, na região central mineira. A Vale diz entender que não há risco na estrutura e manterá o esforço para liberar a barragem na Justiça. A empresa ainda afirma que as barragens de Ouro Preto já não estavam operando e as demais tinham propósito exclusivo de contenção de sedimentos e não de dispor rejeitos.Segundo Luciano Siani, diretor de Finanças e Relações com Investidores, da Vale, o foco tem sido garantir a segurança “no entorno das barragens”.

Empresa diz ter política correta de controle

A Vale defendeu sua política de alertas para barragens. Segundo o gerente executivo de Planejamento e Desenvolvimento de Ferrosos e Carvão da empresa, Lúcio Cavalli, os fatores descritos no documento que se tornou público por causa da investigação sobre o desastre de Brumadinho são “probabilísticos” e não “determinantes”, como as análises da consultoria independente Tüv Süd, que havia atestado a segurança da estrutura em setembro. 

Já o diretor de Finanças e Relações com Investidores da Vale, Luciano Siani, afirmou que apenas nesta terça soube de workshop técnico feito na companhia em outubro para discutir a situação das barragens em Minas. O documento anexado ao processo é a apresentação feita por causa desse evento. 

Segundo ele, há controvérsia sobre a conveniência de passar a escalões superiores (e mesmo a alguns níveis técnicos) informações sobre esses riscos. A ideia é que níveis hierárquicos inferiores tenham liberdade para medidas emergenciais necessárias. 

Siani informou que a Vale continua colaborando com as investigações e contratou outro painel de especialistas internacionais para apurar as causas da tragédia. Para ele, a narrativa de que os níveis de água aumentaram e deveriam ter disparado o alerta não é sustentável.

A Vale ainda divulgou laudo sobre o funcionamento dos piezômetros (aparelhos que medem o nível de água) da barragem. Conforme o documento, a estrutura estava sem leitura desses equipamentos em janeiro.

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