Roberto Castro/MTur
Roberto Castro/MTur

Bumba Meu Boi do Maranhão é eleito Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco

Expressão cultural tradicional apresenta performances dramáticas, musicais e coreográficas, mas também elementos materiais

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2019 | 13h54
Atualizado 12 de dezembro de 2019 | 12h25

SÃO LUÍS - Tradicional celebração da Região Nordeste do Brasil, o Bumba Meu Boi do Maranhão foi escolhido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura  (Unesco), em reunião realizada em Bogotá, na Colômbia, nesta terça-feira, 10.

Reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural do Brasil em 2011, o Bumba Meu Boi do Maranhão é considerado um Complexo Cultural por congregar diversos bens associados em uma manifestação. A série de eventos apresenta performances dramáticas, musicais e coreográficas, mas também elementos materiais, como artesanatos, bordados do couro do boi e indumentárias dos personagens, instrumentos musicais, entre outros. 

Enraizado no catolicismo popular, o bumba meu boi envolve a devoção aos santos juninos São João, São Pedro e São Marçal, mas os cultos religiosos afro-brasileiros do Maranhão, como o Tambor de Mina e o Terecô, também estão presentes na celebração. Segundo a tradição, o sincretismo ocorre entre os santos juninos e os orixás, voduns e encantados que requisitam um boi como obrigação espiritual.

Considerado a mais importante manifestação da cultura popular do Maranhão, o bumba meu boi tem seu ciclo festivo dividido em quatro etapas: os ensaios, o batismo, as apresentações públicas ou brincadas, e a morte. É vivenciado pelos brincantes ao longo de todo o ano. 

A lenda, estima-se, vem do século 18. A versão mais comum dá conta de que Catirina, grávida, sentiu desejo de comer a língua do boi mais precioso da fazenda onde trabalhava. Para satisfazer as vontades da amada, Pai Chico matou o boi – causando a ira de seu patrão. Mas, com ajuda de seres mitológicos, o boi ressuscitou, deixando todos felizes.

Para a presidente do Boi de Maracanã  - um dos mais tradicionais grupos do Estado -, Maria José Soares, é um privilégio para a cultura ser selecionada pela Unesco, segundo um comunicado do Iphan. O grupo possui mais de 1 mil pessoas envolvidas na manutenção da cultura popular.

Também em nota, emitida antes da escolha, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, destacou que a análise da Unesco reforça o potencial do turismo cultural do Brasil.

"Não à toa, fomos eleito pelo Fórum Econômico Mundial como o nono país em atrativos culturais, o que nos faz ter a certeza de que a valorização de nossa identidade cultural será fundamental para levar o setor a um novo patamar", disse. 

Para o secretário Especial da Cultura, Roberto Alvim, o reconhecimento é de extrema importância pois além de garantir maior promoção do bem no País e no exterior, vem acompanhado de um trabalho de valorização e proteção.

"No dossiê construído para a candidatura estão previstas ações de salvaguarda que terão que ser cumpridas para garantir que essa expressão cultural não se perca de sua essência", afirmou, também em nota.   

O Complexo Cultural do Bumba meu Boi é o sexto bem brasileiro a integrar a lista internacional. Antes, foram escolhidos:

  • A Arte Kusiwa - Pintura Corporal e Arte Gráfica Wajãpi (2003);
  • Samba de Roda no Recôncavo Baiano (2005);
  • O Frevo: expressão artística do Carnaval de Recife (2012);
  • Círio de Nossa Senhora de Nazaré (2013); e
  • A Roda de Capoeira (2014). 

Eram 429 expressões culturais inscritas na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco em 2019.

No Maranhão, o Bumba Meu Boi está na publicidade estatal, nos nomes das empresas (a principal fábrica de pães do Maranhão e que abastece o Estado inteiro se chama Bumba Meu Pão) e de organizações não governamentais, está na decoração das casas, está no artesanato local. 

“O Bumba Meu Boi mantém a vitalidade há quase dois séculos e é um fenômeno cultural que conseguiu chegar onde chegou por ser denso. Tem como características a universalidade, uma vez que o boi como símbolo está presente em quase todas as manifestações culturais da humanidade, é multifacetado, tem uma dimensão social e de representação da realidade. É uma manifestação cultural que se reinventa sem perder a sua narrativa, que tem ciclo ritualístico próprio e que dialoga com as pessoas que vivem no Maranhão”, comentou a pesquisadora Esther Marques, mestre em cultura e comunicação pela Universidade Nacional de Brasília (UNB). /COLABOROU ERNESTO BATISTA, ESPECIAL PARA O ESTADO

Veja o vídeo da candidatura do Bumba Meu Boi, produzido pelo Iphan:

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