Burocracia mexicana barra show de mulatas do Sargentelli

Grupo formado por 17 músicos e bailarinas deveria estar fazendo shows desde o dia 22 no México

Gustavo Miranda, estadao.com.br

30 de janeiro de 2008 | 17h38

Não é de hoje que a maior festa popular do Brasil se transformou em uma grande oportunidade de negócios. Seja desfilando seus produtos em carros alegóricos seja alugando camarotes para convidados e clientes, as empresas descobriram como transformar em lucros o brilho e a magia do carnaval, e era assim que uma companhia de dançarinos de São Paulo pretendia vender a imagem da maior festa popular brasileira no México, de 22 de janeiro até 27 de fevereiro.   Por enquanto, o grupo, composto por 17 músicos e as tradicionais mulatas, não consegue nem informações sobre o que está emperrando a entrada deles no país. Eles não sabem nem que é a falta de uma carta pedindo a autorização da entrada deles no país, feita pelo próprio governo do Estado que os contratou, que está impedindo seu ingresso no país e gerando um prejuízo "incalculável" ao grupo. Em dezembro do ano passado, a Companhia Sandrinha Sargentelli - empresa de dança criada pela sobrinha do tradicional divulgador da beleza da mulata brasileira, Oswaldo Sargentelli, morto em abril de 2002 - foi contratada pelo governo do Estado de Vera Cruz para que ela e suas mulatas fizessem 15 apresentações, em várias cidades.   Desde então, começou a corrida pelo visto para entrada dos brasileiros no país. "No início do ano, ligamos para o consulado do México em São Paulo e recebemos todas as informações de como teríamos de fazer para conseguir os vistos e poder seguir à risca o contrato celebrado com o governo mexicano. Mas, já na primeira ida ao consulado, recebemos orientações desencontradas e motivos diversos para a negativa do visto no nosso passaporte. Anexamos diversos documentos, voltamos novamente, e mesmo assim, falaram que não poderíamos ter o visto. Eles nos trataram como se fôssemos imigrantes ilegais no México", contou Sandrinha Sargentelli.   Segundo o cônsul do México em São Paulo, Salvador Arriola, no momento da entrevista consular e da análise dos documentos, os funcionários responsáveis determinaram a necessidade de obter uma permissão migratória das autoridades competentes no México. "Na prática, o que nós explicamos para elas é que quem deveria solicitar a permissão migratória são os organizadores do evento no México. O problema delas, na verdade, é com os mexicanos de lá, porque os daqui não podem autorizar a entrada deles no país. A burocracia do Estado que contratou as mulatas é que está emperrando a entrada delas no México", diz o cônsul.   O governo do México encara grupos artísticos como uma categoria diferente de visitante. Eles não são vistos como turistas ou como pessoas que vão celebrar negócios no país. Na prática, eles são encarados como visitantes técnicos e precisam que a empresa que solicita os seus "serviços técnicos" solicite o visto diretamente no Instituto Nacional de Migración no México, mesmo quando quem contrata é o próprio governo. "Com o intuito de evitar confusões, o consulado informou também desta situação aos organizadores no México, com e-mails encaminhados nos dias 17, 22 e 27 de Janeiro. Infelizmente, o consulado não recebeu a permissão migratória", conta Arriola.   Sargentelli e as mulatas   Morto em 2002, vítima de um ataque cardíaco, Oswaldo Sargentelli era sambista, especialista em mulatas e colecionava passagens pelo rádio e pela televisão. Entre 1957 e 1964, comandou o programa 'O Preto no Branco', que em São Paulo recebeu o nome de 'Pingo nos Is'. Sem aparecer no vídeo, ele fazia as perguntas mais indiscretas possíveis aos entrevistados. Um dos mais conhecidos é o episódio em que convidou Jânio Quadros para o programa e, aproveitando o estrabismo do ex-presidente, iniciou a entrevista com a seguinte frase: "Jânio Quadros, um olho no capital estrangeiro e outro em Moscou".   Em 1964, foi proibido de trabalhar na imprensa pelo regime militar e começou a fazer os primeiros shows com mulatas. Em 1969, assumiu a direção da sua primeira casa, o Sambão, em Copacabana. Um ano depois surgiu o Sucata e, em 1973, Sargentelli transformou o antigo Zeppellin - reduto da esquerda carioca - no Oba-Oba, a casa em Ipanema que deu fama definitiva ao produtor. Foram dez anos no Rio e outros seis em São Paulo, em que Sargentelli e suas mulatas recebiam até políticos estrangeiros - entre eles o secretário de Estado americano Henry Kissinger, que visitou a casa em 1975.

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