Cabeças brilhantes

Sem tintura negra ou acaju, as coisas ficariam mais claras no Congresso Nacional

Humberto Werneck,

27 de maio de 2012 | 16h11

Sei lá, tenho a impressão de que os cabelos estão em queda. Não me refiro aos meus, que bem ou mal resistem, embora cada vez mais brancos (não se fie na velha foto acima). Falo dos cabelos em geral, dos masculinos em particular. E adianto uma decisão a que acabo de chegar: se me sobrar um dinheirinho para investir, a última alternativa serão as indústrias de pentes, xampus e condicionadores. Não quero correr riscos.

Não me queiram mal os fabricantes desses produtos. Estava eu frente à televisão, outro dia, e uma zapeada vadia me levou a um programa em que os três entrevistados do William Waack eram cabeças em mais de um sentido brilhantes. Trabalho deve ter tido o maquiador da emissora para impedir que uma inconveniente reverberação da luz lhes ofuscasse as ideias. Sempre achei que rosto e cabeça não devem brilhar mais do que o dono.

Dali saltei para uma partida de futebol, e me dei conta de que também em campo rolam numerosos os carecas – o que realça ainda mais o penacho do Neymar, não tivesse ele outros atributos para distinguir-se. Creio que mesmo entre os craques argentinos começa a ralear, desbancada pelo deserto capilar, a cafonice do mullet, aquela massa de cabelos que desaba nuca abaixo. Também entre a moçada, de pé na calçada do boteco ou da facul (reparou que temos aí uma Stand-up Generation? Eu não investiria tampouco na indústria de cadeiras, bancos e poltronas), multiplicam-se cabeças desguarnecidas – por fora, pelo menos. Segundo estou informado, não só cabeças como peitos masculinos, e sabe-se lá que outros rincões do território corporal, rendem-se à voga da depilação. Mais e mais moços, dizem, exibem-se glabros como campeões de natação, escorregadios como bagres. É dos depilados que elas gostam mais?

Digamos que se generalize a moda de passar a navalha. Teremos nada menos que uma revolução. Estará inventado o couro não-cabeludo, o que virá diluir o calvário dos calvos. Resultará inútil procurar pelo não só em ovo, como no coco dos marmanjos. Ficaremos todos carecas de saber – e também de não saber. Mais: será o fim do estigma do "cabelo ruim" e da alegada superioridade do "cabelo bom", o que fará nascer entre nós um tufo de democracia capilar. Já não fará sentido a melancólica resignação de quem suspira, Poliana sem madeixas: o quanto perco em cabelos, ganho em testa.

Será o fim, ainda, da caspa varonil, do cabelo na sopa, do ralo entupido no chuveiro. O desemprego do piolho – o qual, não o subestimemos, poderá reaparecer em outras guarnições pilosas do corpo, se ainda as houver, como essas onças que, tangidas pelo desmatamento, dão de frequentar cidades. Fosse eu piolho e poria as barbas de molho – se também estas não tiverem sido escanhoadas. Inclusive aquelas que, viajando de orelha a orelha, outrora se chamaram "passa-piolho". Por falta de habitat, será quem sabe o fim dos chatos – pena que só numa acepção da palavra.

Há que pensar também no lado menos cabeludo da desertificação dos crânios. Gastos com filtro solar anularão a economia com xampu. Tendo perdido a batina, os padres perderão seu distintivo: a tonsura ou cercilho, aquela clareira circular no topo da moleira. Expressões como "arrancar os cabelos", "de arrepiar os cabelos" e "ficar de cabelo em pé" haverão de se tornar obsoletas e, para as gerações a vir, enigmáticas. E como, não o tendo, "ter topete"? Como ficar "nu em pelo", se pelo já não haverá? Como respeitar "ao menos meus cabelos brancos", se eles ausentes estarão?

Paciência, não se pode ter tudo. Já se viu calva e pente andarem juntos? Iremos descobrir, em todo caso, que mais vale assumir a carequice do que apelar para a peruca, mesmo quando não seja ostensiva como aquela, capacete quase, que o Chico Xavier equilibrava no cocuruto em sua mais recente passagem por aqui. Ou que ninguém precisará mais adquirir, na idade madura, os cabelos azuis de tia-avó. Sim, melhor que os cabelos azulem do que fiquem azulados. Será de bom-tom.

Falar em tom: a cassação da tintura negra e da acaju não deixaria as coisas bem mais claras no Congresso Nacional?

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