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Caça às bruxas

O importante é ver como podemos ser injustos achando fazer justiça

Daniel Martins de Barros*, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2019 | 03h00

É difícil aceitar a existência do mal no mundo. Deve ser por isso que vivemos em busca dos culpados pela maldade.

Hoje em dia as teorias abundam, mas houve um tempo em que era fácil: a culpa era das bruxas. Elas eram pessoas com a vontade fraca que davam lugar à maldade soprada pelo diabo. A ideia vinha do tinhoso, mas a responsabilidade era delas.

Pode parecer absurdo aos olhos de hoje, mas o corpo teórico por trás da ideia, misturando teologia, folclore e lendas urbanas, era levado a sério. A ponto de se organizarem julgamentos formais para determinar se uma pessoa acusada de bruxaria era culpada. Havia testemunhos, jurados, juízes e até perícias médicas. O surpreendente é que essa crença não se restringiu ao mal afamado período das trevas.

Após o Renascimento e durante a Revolução Científica, o movimento vicejou, sendo emblemático o processo contra Katharina Kepler, que foi defendida pelo seu filho, o astrônomo Johannes Kepler. Possivelmente a última execução de alguém condenada por feitiçaria ocorreu só em 1811. Em plena Europa do século 19.

Um dos mais famosos casos foi o de Salem, aldeia de Massachusetts (EUA), em 1692. Tendo inspirado peça de teatro, filme, série, ficou conhecido como As Bruxas de Salem. Neste ano foi lançado em português o excelente livro As Bruxas – Intriga, Traição e Histeria em Salem (Editora Zahar), da escritora Stacy Schiff, vencedora do Prêmio Pulitzer em 2000.

O livro é impressionante em diversos níveis. É enorme a quantidade de documentos analisados, de transcrições dos julgamentos a depoimentos de testemunhas, de sermões pregados por religiosos envolvidos no processo a livros consultados pelos juízes. Mais surpreendente, porém, é a capacidade de Schiff costurar todas essas informações numa história cronológica e envolvente.

No entanto, sem querer tirar em nada o mérito da autora, a estrela do livro é a história em si. Resumindo demais, tudo começou quando algumas meninas apresentaram crises que hoje seriam diagnosticadas como psicológicas, mas as atribuíram à feitiçaria. Suspeitas foram levantadas e pessoas, ouvidas, até que uma escrava acusada resolveu contar histórias inspiradas no vodu. 

A partir daí os eventos passam a ganhar importância na cidade, aumentando exponencialmente o número de cidadãos tanto afetados por sintomas como acusados de bruxaria. Com a população convencida do problema teve início uma – literal – caça às bruxas. Tornou-se comum acusar outras pessoas ao ser acusado – era mais fácil confirmar a história e se dizer vítima do que mostrar a insanidade que tinha lugar ali.

Até os juízes já entravam na Corte convencidos da culpa dos acusados. As meninas diziam que viam os espectros voando pela sala, e eles acreditavam. Era “um mundo em que, quando uma menina apontava uma figura invisível, você acreditava que ela estava certa e você, cego”, escreve Schiff.

Uma acusada dizia que não era bruxa e nem sabia como eram. “Então como sabe que não é bruxa?”, perguntou um juiz. Outra, ao perceber que suas palavras seriam fatalmente distorcidas, resignou-se: “Estão todos contra mim e não posso fazer nada”. Quem fosse um pouco mais cético e questionasse os procedimentos acabava ele mesmo acusado. Um guarda que não acreditou em umas acusações foi preso. “Se você não é a favor de Cristo e suas obras, é contra ele”, repetia-se. Ao fim, 19 pessoas foram executadas – 14 mulheres e cinco homens – e pouco após um ano ninguém queria falar nisso. Constrangimento e culpa perpassavam as lembranças dos envolvidos.

Não me parece razoável, porém, acreditar que todas as pessoas da cidade eram simplesmente desalmadas. Questões de gênero, momento político e vieses psicológicos estão por trás dessa mancha histórica. O importante é ver como podemos ser injustos – achando fazer justiça – quando dividimos o mundo entre nós e eles e nos convencemos de que eles são culpados a priori.

A partir de agosto passamos a nos encontrar às segundas-feiras, neste mesmo local. Espero vocês.

*É PSIQUIATRA

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