Caçadora de fumaça

Maria Cristina, chefe das blitze, ainda se lembra do tio, morto por câncer, e luta para salvar vítimas do cigarro

Fernanda Aranda, O Estadao de S.Paulo

24 de maio de 2009 | 00h00

O cheiro que lembra infância não combina com a imagem das brincadeiras no quintal grande da casa em Botucatu, no interior paulista. Mas sempre que qualquer rastro de nicotina passa por suas narinas veem à memória os tempos de menina, ao lado do tio mais querido, que não existia sem estar com o Hollywood na mão esquerda. Aí dói. Ela lembra dele morrendo de câncer e ensinando o que era saudade para alguém que só tinha 15 anos. Sem saber, Maria Cristina Megid começava ali a se transformar numa caça-fumaça. A partir de agora, aos 52 anos de idade, é essa médica que vai comandar a fiscalização da lei mais restritiva ao fumo que o Estado já teve. Com 1,53 m de altura (sempre disfarçados pelo salto alto), Maria Cristina vai liderar a equipe de 420 fiscais que tentará não dar trégua aos bares, restaurantes e casas noturnas que permitirem o uso do cigarro em ambientes fechados. Será ela quem vai autorizar multas de R$ 720 a R$ 3 mil para os locais infratores (a partir de 6 de agosto). É a mesma que pode dar suspensão de atividades por até 30 dias ao comércio em caso de reincidência.A "xerife" tem um exemplo caseiro que a faz ter certeza de que a lei antifumo vai, de fato, pegar. Depois do tio que perdeu para o cigarro, nenhum integrante dos Megid (são três irmãos, três cunhadas e sete sobrinhos) se aventurou no hábito. E olha que justo o patriarca da família até arriscou dar mau exemplo. "Meu pai fumou até os 40 anos, quando recebeu o ultimato: para ou morre", conta. "Ele largou o cigarro e viciou no doce. Prefiro assim, até porque papai está com 85 anos e continua firme", lembra ela, que, ainda mocinha, tentou comprar cigarrilhas para combinar com a turminha de adolescência que ouvia Bee Gees e baforava fumaça, fazendo aquilo parecer a coisa mais linda. Mas Maria Cristina "afogou". Tossiu tanto... Sua vida de fumante durou um trago. Pegou nojo e cigarro virou critério seletivo. "Se o cara fumava, perdia o encanto. Nunca gostei de ?Cowboy do Marlboro?."Já nessa época de fracasso no fumo, ser médica era ideia fixa, quase teimosia. Ela tinha só 4 anos quando viu uma "heroína" de avental branco e estetoscópio no pescoço salvar a vida do irmão caçula. "Nunca mais pensei em ser outra coisa na vida." Resposta pronta para "o que você vai ser quando crescer?", ela sabia que tinha de estudar duro para alcançar o sonho de ser super-herói na vida real, contrariando então o sonho da mãe de ver "a única filha ser artista plástica".Cristina largou o aconchegante colégio de freiras onde estudou desde meninota para se aventurar no imponente Arquidiocesano de Botucatu, instituição onde era uma das quatro mulheres da escola. Em 1979, aos 23 anos, estava formada na quinta turma de Faculdade de Medicina de Bragança. Escolheu ginecologia e mais uma vez virou exceção. Dra. Cristina, entre homens e mulheres, era a única médica de Bofete, cidade de 8 mil habitantes, onde recém-diplomada aprendeu de tudo: de parto a enfarte. O cigarro, de toda forma, já dava trabalho dobrado."Nos pacientes de câncer, nas gestações interrompidas, enfisemas", pontua. Veio então o grande susto. O irmão do meio, aos 36 anos, teve obstrução da coronária, problema típico de fumante, sem nunca ter colocado um cigarro na boca. "Eram os males do fumo passivo chamando minha atenção", acredita.Maria Cristina chegou à capital (onde mora há seis anos) e foi convidada a trabalhar no Centro de Vigilância Sanitária, departamento onde aprendeu a comprar brigas. "É com laboratório, na hora de interditar remédio, com empresário, na hora de interditar o local. Você bate de frente com muitos interesses", diz ela, com um sorrisinho, ao afirmar que, sim, gosta do ringue. "Essa do cigarro é a maior briga que já comprei."Mas, para não ficar com fama de brigona, Maria Cristina gosta de citar a pesquisa nacional que mostra a morte diária de sete pessoas em decorrência do fumo passivo. "São essas que precisam ser salvas com a lei." No fim, a caça-fumaça só quer ser aquela heroína de avental.

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