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Cães aposentados da Polícia Militar ganham novos lares em Pernambuco

Campanha de adoção é sucesso no Instagram e candidato a dono tem de comprovar que cuidará bem do animal

Jessica Brasil Skroch, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2021 | 05h00

Gaia, uma pastor-belga-malinois, teve uma vida inteira dedicada ao trabalho para a Companhia Independente de Polícia com Cães (CIPCães) da Polícia Militar de Pernambuco. Por oito anos, a cadela teve uma rotina com múltiplas funções: atuou nas diversas modalidades de faro, na patrulha e como guarda de proteção. Hoje, Gaia vive uma aposentadoria tranquila graças à campanha de adoção "Adote um herói", criada pela corporação policial onde vivia e trabalhava. 

Os cães da CIPCães do Estado já eram comumente adotados quando chegavam por volta dos oito anos, idade em que começam a parar de servir à sociedade. Porém, grande parte dos policiais e adestradores das equipes de Pernambuco já tinham algum cão em casa, e os animais policiais aposentados começaram a ficar sem um novo lar, permanecendo em suas unidades de trabalho até o fim da vida. "Imagine você se aposentar e ter que viver no seu ambiente de trabalho?", indaga o major André Pantaleão, comandante da CIPCães. A solução, então, foi criar uma campanha de adoção aberta a toda a comunidade, divulgada no final de novembro deste ano pelo Instagram da companhia: @cipcaes.pmpe.

Até agora, quatro cães já estão em seus novos lares e outros 11 estão em processo de entrega aos donos. Tratam-se de animais que trabalharam desde pequenos junto à segurança pública nas atividades de faro de entorpecentes, explosivos, celulares, armas, na patrulha e como guardas de proteção.  

Mesmo antes do lançamento da iniciativa, já existiam candidatos que buscavam adotar um cão policial. Depois da publicação nas redes sociais, o número de pretendentes só aumentou. Atualmente, são em torno de seis a dez proponentes para cada cão, explica o major Pantaleão.

Um dos primeiros da fila foi Pablo Brasileiro, personal trainer, que já estava buscando um cão mais maduro para acompanhar a Preta, sua cadela de cinco anos. Em conversa com um de seus alunos, que faz parte da PM de Pernambuco, ele ficou sabendo da nova possibilidade e logo se candidatou. 

O processo para adoção é bem criterioso. Brasileiro precisou comparecer presencialmente na unidade duas vezes, preencher o requerimento de doação, realizar uma entrevista, além de assinar um termo de responsabilidade pela posse do animal, de forma a se comprometer com os cuidados adequados em relação a abrigo, alimentação, medicamentos e visitas constantes ao veterinário. Por conta da idade, o cão não pode ser usado em nenhuma atividade laboral, para procriação ou em competições. O proponente ainda deve dispor de espaço limpo, seco e suficiente para atividades lúdicas com o cão a ser adotado. 

Os requisitos não param por aí. Além de apresentar diversos documentos, o futuro dono também precisa aceitar visitas não agendadas da equipe multidisciplinar do CIPCães, que verificam a situação do animal. O major Pantaleão explica que, caso seja verificada alguma irregularidade, o cão será retirado do local e retornará para a companhia ou para entrar num novo processo de adoção. "Achei fantástico. É uma preocupação importante para evitar alguém mal intencionado, principalmente porque são cães de raça e poderiam ser usados para procriar", opina Brasileiro. 

O personal trainer não só cumpriu todos os requisitos, como teve uma conexão especial com Gaia. "Eu fui lá conhecer os cães e logo eu bati o olho em Gaia. Fiquei e passeei com ela. Fiz outra visita, para ter certeza de que a cadelinha teve uma boa adaptação comigo. Ela é muito tranquila", lembra Brasileiro. Hoje, Gaia convive muito bem com todas as pessoas que frequentam a casa do dono, inclusive com crianças. A Preta, sua outra cadela, também gosta da nova integrante da casa: "Quando elas se juntam é um bagunça, tiram tudo do lugar", conta. 

Diferente do que muitos podem pensar, os cães policiais que estão para adoção são dóceis, alerta Pantaleão. "São animais que têm condições de conviver com novas pessoas e outros animais", informa. Porém, existem cães que não podem participar do processo de adoção, como aqueles com dificuldades de socialização. Nesses casos, os animais permanecem com a companhia.

O major avalia como muito positiva a oportunidade de adotar um "herói" que trabalhou para a sociedade, mas confessa que a partida é um momento triste. "Toda despedida é dolorosa. Passamos muito tempo com esses animais, ficamos saudosos, mas sabemos que com a nova família eles terão a mesma atenção que aqui." 

Como cuidar de cães idosos

Os cães idosos são os que têm maior dificuldade de encontrar adotantes. Porém, assim como Brasileiro, há pessoas que preferem adotar um animal mais maduro. Um dos pontos positivos é que, segundo Enore Massoni, presidente da Associação Brasileira de Geriatria Veterinária, eles já estão com a personalidade formada, então não haverá surpresas de um animal que pode se tornar agressivo de uma hora para a outra. "De uma maneira geral, quando são adotados, são aqueles que mais demonstram gratidão e são carinhosos", afirma.

Para as pessoas que pretendem adotar um cão idoso, é importante procurar saber a sua história, pelo o que ele já passou, se possui traumas ou doenças, explica Massoni. Além disso, uma série de cuidados especiais são necessários para garantir a qualidade de vida nessa fase. 

O veterinário explica que cães idosos tendem a perder massa muscular e a acumular gordura, o que faz com que seja necessária uma restrição de carboidratos e um aumento de proteína, com alimentos de qualidade e boa digestibilidade. Outro ponto colocado pelo especialista é a importância da realização de atividades físicas, o que também exercita o sistema cognitivo, prevenindo ou aliviando os sintomas do Alzheimer canino. Porém, Massoni ressalta que é preciso respeitar os períodos de descanso.

Animais idosos ainda possuem a mobilidade reduzida. "É muito importante facilitar a mobilidade, utilizar tapetes antiderrapantes, instalar rampas em escadas, elevar comedouros e bebedouros", sugere o veterinário.

Nos dias mais frios ou mais quentes, os cães idosos também precisam de uma atenção especial. O veterinário coloca que nessa fase eles perdem parte da sua capacidade de termorregulação, ou seja, ficam mais susceptíveis a hipotermia ou hipertermia. 

Assim como os humanos, animais mais maduros estão mais suscetíveis a diversas doenças. Por isso, visitas ao veterinário devem ser mais frequentes. "O ideal é a utilização de programas de saúde com visitas estipuladas de acordo com a gravidade de cada caso. Em idosos saudáveis, o recomendado são visitas, no mínimo, semestrais", indica Massoni. 

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