Cai interesse por locação temporária no litoral de SP

Os investidores perderam o interesse no mercado de locação de imóveis residenciais para temporadas no litoral paulista. Com o aluguel em queda e as dificuldades para encontrar locatários, muitos imóveis estão vagos e outros foram vendidos pelos proprietários, que preferem aplicar o dinheiro em outros investimentos.Segundo o presidente do Conselho Regional dos Corretores de Imóveis do Estado (Creci-SP), José Augusto Viana Neto, a locação de temporada atingiu seu auge nos anos 70 na orla paulista. Mas a concorrência com os hotéis e o empobrecimento da população nas décadas seguintes alteraram o quadro."Os valores de locação são um terço do que eram no início do Plano Real", afirmou Viana Neto. "E, mesmo assim, é difícil alugar os imóveis", acrescentou. Com isso, muitos proprietários decidiram trocar a locação temporária por contratos convencionais de longo prazo, atendendo à população que habita o litoral ou às pessoas que desejam morar na região."Outros venderam os imóveis e investiram em lotes mais distantes da praia", explicou Viana Neto. Segundo o presidente do Creci-SP, a estratégia foi bem sucedida, já que os terrenos valorizaram-se, em dólar, até 300% nos últimos cinco anos, devido à expansão das cidades.PerfilPequenos e médios comerciantes do litoral e da capital, além de particulares com alguma poupança, compunham o maior contingente de proprietários de imóveis litorâneos para temporada. No geral, buscavam uma fonte adicional de renda, seja para obter dinheiro para a manutenção do imóvel (como pagamento de impostos e taxas), seja para complementar seus vencimentos.Mas a expansão de hotéis, pousadas e colônias de férias, nos anos 80 e 90, foi a primeira dor de cabeça dos investidores, já que os aparelhos de hospedagem disputavam o mesmo público. "Nos anos 80, a Praia Grande chegou a ser a segunda cidade paulista, em número de leitos", afirmou Viana Neto.A partir de 95, as tarifas hoteleiras ficaram um pouco mais caras e a locação temporária esboçou uma reação, insuficiente, contudo, para recuperar o terreno perdido. O resultado é que hoje poucos investidores interessam-se por erguer novas unidades para locação temporária. "O negócio só interessa a alguns incorporadores locais", disse.EmpobrecimentoO empobrecimento da população também contribuiu para a queda nos negócios, conforme Viana Neto. O fenômeno atinge, sobretudo, o mercado de quitinetes e apartamentos de um dormitório. "Esse mercado tende a desaparecer", afirmou.O motivo é que esse produto é procurado por pessoas de menor poder aquisitivo, que locam o imóvel por períodos curtos. Enquanto o prazo médio de locação é de cinco dias, em alguns casos o apartamento é usado por apenas um ou dois dias, por grandes grupos que o procuram apenas para trocar de roupa ou tomar um banho, antes de voltar à sua cidade de origem.Mas a cobrança de taxas para que ônibus de excursões circulem nas cidades litorâneas reduziu muito esse público, segundo Viana Neto. Além disso, no próximo ano, deve ser inaugurada a segunda faixa da Rodovia Imigrantes, o que reduzirá o tempo de viagem até a praia. "Ficará mais fácil descer de manhã e voltar no final da tarde", disse. "Quem precisará locar um apartamento?", indaga.O nicho de casas mostra-se mais estável, pois é procurado por um público de maior poder aquisitivo. "Os interessados buscam conforto e não querem ficar num hotel ou num apartamento", disse. No geral, os imóveis mais procurados são os de três dormitórios, capazes de hospedar grandes famílias ou grupos de amigos.Uso próprioOutra conseqüência é que muitos proprietários desistiram de locar seus imóveis e agora os têm para uso próprio ou de familiares, sem intenção de renda.Segundo Viana Neto, na Praia Grande, por exemplo, há 80 mil domicílios. Destes, de 20 mil a 25 mil são ocupados com fins residenciais. O restante é composto por imóveis para temporada seja os de uso próprio, seja para locação."Mas o mercado de locação temporária é ínfimo", disse. "Não acredito que ultrapasse os 1,5 mil imóveis na Praia Grande", completou. Segundo Viana Neto, o fenômeno se acentuou neste ano, quando muito proprietários desistiram de locar seus imóveis e decidiram ocupá-los nas festas de fim de ano. "Com o dólar caro, eles deixaram de viajar e vão usar seus próprios imóveis", disse.Perda de importânciaOs corretores de imóveis também sentem no bolso a perda de prestígio das locações temporárias. Viana Neto cita seu próprio exemplo. Dono de uma corretora na Praia Grande, os imóveis de temporada respondiam por 25% de seu faturamento nos anos 70. "Hoje, não chega a 3%", disse.A maior parte do faturamento deriva de negociações tradicionais de compra, venda e locação de imóveis para a população local. "Isso é um negócio que está crescendo", concluiu.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.