Calendário na parede, demissão de amigos, fugas e idolatria pela mãe

Ex-presidente tinha obsessão por mostrar que não tinha apego ao poder

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2011 | 00h00

Itamar Franco era conhecido por seu temperamento impulsivo. Era também obcecado em mostrar a todos que o cercavam que não tinha apego ao cargo e ao poder, que considerava completamente efêmeros. Como prova disso, mantinha um calendário pregado na parede de um pequeno escritório reservado de trabalho, ao lado de seu gabinete presidencial, no terceiro andar do Palácio do Planalto.

Nele, marcava religiosamente cada dia que passava, que considerava um dia a menos no cargo. Justamente por ter sucedido Fernando Collor de Mello, que sofreu impeachment acusado de corrupção, Itamar imprimiu um padrão ético em seu governo. Desse modo, o surgimento de qualquer suspeita de irregularidades ou desvios fazia com que excluísse auxiliares de seus cargos, por mais que fossem seus amigos. Não hesitou em afastar Henrique Hargreaves da Casa Civil, quando apareceu como suspeito de desvio de verbas. Só o readmitiu mais de um ano depois, quando ficou inteiramente comprovado que Hargreaves havia sido acusado injustamente. Os dois seguiram aliados e amigos.

Itamar Franco também demitiu outro amigo, o ex-senador Eliseu Resende (1929-2011), que havia sido nomeado ministro da Fazenda. Ele foi acusado de ganhos ilegais no período em que fora ministro dos Transportes, no governo João Figueiredo. Resende não voltou a ocupar nenhum cargo no governo de Itamar.

Imprensa. Itamar não usava a garagem do Planalto. Todos os dias, quando chegava e saía do palácio, fazia questão de conversar com os jornalistas que ali faziam cobertura diária. Nas viagens, costumava dar carona aos jornalistas no avião presidencial. E quando os via nos cercadinhos que a segurança monta em todas as viagens, ia até lá.

O ex-presidente preocupava-se com as coisas básicas do dia a dia, como preço do botijão de gás, da mensalidade escolar, da taxa de juros do cheque especial ou das passagens de ônibus. Bastava que um jornalista ou um assessor o informasse que o preço do remédio tinha subido exageradamente - assunto que ele tinha fixação -, ou da gasolina, do pão ou do leite, para ele convocar o ministro da respectiva área e exigir explicações. Depois, chamava a imprensa para informar o que estava sendo feito para corrigir a situação.

Ele odiava todos os rituais da Presidência e, principalmente, o aparato de segurança que o cercava. Não se cansava de tentar driblar os seguranças ou fugir deles. Fez isso várias vezes em Juiz de Fora, em Brasília, ou até durante viagens ao exterior.

Já chegou a sair escondido no carro com seu motorista, Pedro, da garagem do prédio que morava em Juiz de Fora na época que era presidente, para que não fosse acompanhado. Os seguranças passaram a se disfarçar para não serem reconhecidos e assim controlar os passos do presidente.

Quando ia para Juiz de Fora, sempre seguia em seu carro, dirigido pelo seu fiel escudeiro, o comandante Carvalho. Certa vez, o pneu do carro furou e os seguranças fecharam a estrada para "proteger" o presidente. Pouco depois, Itamar "achou estranho" a estrada estar sem movimento e foi saber o que estava acontecendo. Quando constatou que estava fechada, mandou reabrir a via, dando uma bronca nos seguranças.

Itamar tinha uma adoração pela mãe, dona Itália Cautiero Franco. Quando, em novembro de 1992, ela adoeceu e chegou ao estágio final da vida, ele transferiu o seu gabinete de trabalho para Juiz de Fora e convocou os ministros para lá despacharem. Daí a "República do Pão de Queijo".

Durante um Carnaval no Rio, ele protagonizou o maior escândalo de seu governo, que não teve nada a ver com corrupção: apareceu na foto ao lado da modelo Lilian Ramos, flagrada sem calcinha.

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