Câmara Municipal retoma projeto de Niemeyer, de 1952

Obra de R$ 30 milhões no prédio vai priorizar idéias do arquiteto carioca que não foram executadas na época

Diego Zanchetta, O Estadao de S.Paulo

18 de maio de 2008 | 00h00

Em setembro de 1952, o prefeito Armando de Arruda Pereira ficou irritado com a vitória do arquiteto carioca Oscar Niemeyer em concurso de projetos para a construção do Paço Municipal de São Paulo. Pereira e alguns vereadores queriam à época um arquiteto paulista para traçar a edificação planejada para o Viaduto Jacareí, onde hoje funciona a Câmara.Após meses de polêmica, o projeto de Niemeyer, que vivia período de prestígio internacional, com projetos em Berlim e Paris, acabou executado pelo escritório do paulista Alfredo Mathias e entregue à cidade em 1969. Houve modificações e o prédio teve o tamanho reduzido, planejado para abrigar somente a sede do Legislativo, que contava com 21 vereadores. Agora, passados 55 anos, a Empresa Municipal de Urbanização (Emurb) contratou o escritório Paulo Bruna Arquitetos para projetar uma reforma de R$ 30 milhões na Câmara, na qual o resgate de parte dos traços do projeto original de Niemeyer é uma das metas.O original previa uma esplanada na entrada, com teatro e colunas em ''V''. Nas décadas de 40 e 50, a Prefeitura mantinha repartições descentralizadas em 12 prédios alugados na Rua Libero Badaró e uma sede, onde ficava o gabinete do prefeito, no Palacete Conde Prates. ''O que queremos resgatar é essa esplanada e as colunas. A idéia é tentar recuperar parte do projeto que não foi executada, com a criação de um espaço livre na entrada da Câmara'', contou ao Estado o arquiteto Pedro Bruna, da Paulo Bruna Arquitetos. O escritório, que venceu a licitação da Emurb, terá três meses para desenhar o projeto.A maior parte do projeto de Niemeyer foi mantida, como a escada em forma helicoidal que corta os 14 andares do prédio, um dos marcos da arquitetura modernista da década de 60. A esplanada com teatro e auditório, porém, não foi concretizada - hoje existe um espaço com arquibancada para apresentações, pouco utilizado.EMBRIÃO''Acontece que, hoje, o espaço do prédio ficou pequeno: eram 21 vereadores em 1969 e hoje são 55'', afirma o presidente do Legislativo, Antonio Carlos Rodrigues. Também estão previstas a reestruturação hidráulica e elétrica do edifício e um jardim no terraço no 14º andar, hoje utilizado como um dos pontos da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) para o monitoramento do trânsito. A reforma completa deve terminar daqui a três anos.Pelo projeto de Niemeyer, o plenário da Câmara também ficaria do lado de fora e seria colocado sob uma cúpula, como o projeto de Brasília, também do arquiteto carioca. Tanto que os urbanistas Edite Galote, do Mackenzie, e Ricardo Carranza, da Universidade de São Paulo (USP), defenderam em uma dissertação que o projeto de Niemeyer para o Paço foi o ''embrião'' para o Congresso.A construção de um plenário externo, contudo, não está prevista na reforma do prédio, que tem infiltrações na garagem. O valor da reforma tem teto de R$ 30 milhões, valor médio das sobras anuais do Orçamento do Legislativo. Em 2007, as verbas da Casa totalizaram R$ 247 milhões e restaram R$ 37 milhões. Os últimos reparos no edifício ocorreram em 1989.Para Candido Malta, urbanista da USP, será difícil fazer o resgate do projeto. Ele critica o emaranhado de passarelas construído no entorno da Câmara, como meio de facilitar o acesso ao Terminal Bandeira. '' Não vai ser fácil resgatar o traçado antigo. De qualquer forma, a idéia é simpática'', avaliou. A reportagem procurou Niemeyer em seu escritório, no Rio, para comentar a reforma, mas não recebeu retorno das ligações.

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