Camelôs agora apostam na clientela das ruas ''chiques''

Nas calçadas de vias como Oscar Freire e Augusta, há de DVDs piratas a bijuterias de novela

Fernanda Aranda, O Estadao de S.Paulo

27 de junho de 2009 | 00h00

Do "epicentro" das ruas do Brás e da região da 25 de Março, os ambulantes se espalharam e, aos poucos, chegam às adjacências mais nobres da cidade. Estão trabalhando em endereços onde, aparentemente, não haveria espaço nem clientes para eles. Mas lá vendem feito água. Oscar Freire, Augusta, Luis Carlos Berrini, Pamplona e Alameda Santos são só alguns exemplos das vias onde lojas de luxo dividem espaço com barraquinhas de milho verde, óculos escuros, cachecol, gorros, bijuterias, cadeiras, guarda-sol, guarda-chuva..."Nós trabalhamos 24 horas por dia no combate ao comércio ambulante", afirma o coronel Nevoral Alves Bucheroni, subprefeito de Pinheiros, responsável por administrar os bairros de moradores de maior poder aquisitivo da zona oeste de São Paulo. Segundo balanço feito pela pasta, nos quatro primeiros meses do ano foram realizadas 450 operações contra camelôs nos 32 quilômetros quadrados da subprefeitura. Do total, 24,8% foram nas 20 ruas "top do luxo" da região (veja acima). Um dos metros quadrados mais caros da moda, a Rua Oscar Freire, e outro point referência das marcas caras, a Rua Augusta, lideram as apreensões de mercadorias piratas ou sem licença para serem vendidas. "São 20 vias de muita visibilidade e tráfego de pessoas, por isso são atrativas para os ambulantes", explicou Bucheroni. "Mas, diferentemente de outros locais marcados pelo acúmulo de barraquinhas (como no centro), em nossa região eles trabalham mais isolados e se movimentando muito, o que exige planejamento estratégico para combatê-los", afirmou o subprefeito. SEM CONSTRANGIMENTOSe há planejamento para correr atrás do "camelódromo de luxo", não há constrangimento da população local em consumir esses produtos. Na última semana, a reportagem esteve no circuito de mercadorias apresentado pela subprefeitura e, na hora do almoço, as mulheres de echarpes no pescoço e botas de salto alto faziam fila para ver, experimentar e pechinchar os brincos, pulseiras e acessórios expostos em cima de uma caixa de madeira na Rua Pamplona. Mesma disputa era vista nas barraquinhas da Lorena e da Peixoto Gomide. MAYA X SÍLVIA"Em outros locais a gente vende as bijus falando que são as joias usadas pela Maya (personagem de Juliana Paes na novela Caminho das Índias)", contava uma vendedora. "Aqui, a nossa vitrine são os acessórios da Sílvia (interpretada na mesma trama pela atriz Débora Bloch). Para os que apostam na fruta, os pedaços de abacaxi eram vendidos aos montes àquelas que, por causa do regime, não podiam comprar chocolate de sobremesa. "A estratégia usada aqui é chamar de jovem, em especial, as madames que já passaram dos 50", ensinava um camelô. Já os clientes masculinos recorriam aos acessórios para carro e celular vendidos na Alameda Franca e Gabriel Monteiro da Silva. Os óculos, entretanto, eram pedida "unissex".O consumo nas barracas realizado pela parcela com maior poder aquisitivo acaba impulsionando o problema. "Pesquisas anteriores já mostram que as classes A e B são consumidoras principais dos produtos piratas", afirma Helloisa Torres de Mello, gerente de operações do Instituto Akatu Pelo Consumo Consciente. "São vários motivos que estão por trás desse hábito. Existe até a ideia de que é uma inclusão social para esse camelô. Mas avalio que o motivo principal é que a pessoa não faz a relação entre ambulante e crime organizado. Esse tipo de consumo se dá à luz do dia, na frente de todo mundo. É difícil associá-lo a uma rede de criminalidade", pondera.Edson Luiz Vismona, presidente do Instituto Brasil Legal, completa que a estrutura da pirataria e do comércio ilegal já fatura mais do que o tráfico de drogas. "Desde 2005, a vantagem da pirataria em relação às drogas começou a ser estabelecida. É um negócio feito por lavagem de dinheiro, paraísos fiscais e sofisticação de logística que ficam escondidos atrás dos camelôs."

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