Campanha de presos segue nas ruas

Comitês eleitorais já criaram adesivos com a palavra 'perseguição'; para promotor, quadro no Amapá é de 'desordem total'

BRUNO PAES MANSO, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2010 | 00h00

Os desvios que, segundo a Polícia Federal, foram praticados pela quadrilha de servidores públicos que atuavam no Amapá ficam ainda mais gritantes quando comparados ao dinheiro que o Estado reserva para algumas pastas estratégicas.

O orçamento das Polícias Militar, Civil e do Corpo de Bombeiros é de cerca de R$ 20 milhões. Valor um pouco acima do contrato das empresas Serpol e Amapá Vip, envolvidas na investigação da Operação Mãos Limpas. Para fazer segurança desarmada nas escolas amapaenses, receberam R$ 14,6 milhões da Secretaria de Educação.

"É escandaloso, considerando ainda que o Estado do Amapá vem registrando índices crescentes de roubos e homicídios", afirma o promotor criminal Eder Geraldo Abreu, que investigou contratos do governo.

Somente no último fim de semana, ocorreram 17 mortes violentas no Amapá. O Estado, antigamente pacato, já registrava 27 assassinatos por 100 mil habitantes em 2007, bem acima dos índices de São Paulo (15,4 por 100 mil). "Estamos caminhando para uma situação de desordem total", diz Abreu.

Nas ruas da cidade, a situação não parece causar indignação em massa. As caríssimas campanhas eleitorais permanecem a todo vapor, com adesivos na maioria dos carros, santinhos, camisetas e trios elétricos.

Os 30 mil funcionários públicos correspondem a 10% da população economicamente ativa no Estado e fazem festa e propaganda para que os padrinhos ganhem ou mantenham espaço no governo.

As campanhas dos candidatos presos já criaram adesivos com a palavra "perseguição". "Esse carnaval todo nas ruas é feito pelos funcionários comissionados, que aqui no Amapá tem outro significado. Dizemos que eles são "comicionados" porque participam dos comícios daqueles que lhes dão emprego", diz o engenheiro Audrey Cardoso, presidente do Sindicato dos Urbanitários.

Na Assembleia, por exemplo, os 24 deputados podem indicar mil cargos comissionados. Na Companhia de Eletricidade do Amapá, Cardoso afirma que são 500 funcionários concursados e cerca de 800 comissionados. Com dívida de mais de R$ 600 milhões, incapaz de investir na troca dos equipamentos sucateados responsáveis por apagões diários, a Companhia de Eletricidade do Amapá está perto de ser leiloada. "Não contratam técnicos, mas apadrinhados", diz Cardoso.

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