Campanha petista ganha tom religioso

Na busca por conquistar católicos e evangélicos, jingles falam em Deus e Dilma evita opinar sobre temas polêmicos

Luciana Nunes Leal RIO, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2010 | 00h00

Pelo menos três momentos da campanha da petista Dilma Rousseff, na última semana, apontam para um viés religioso, em busca de uma aproximação com eleitores católicos e evangélicos. A iniciativa mais contundente foi a divulgação da Carta aberta ao povo de Deus, revelada na edição de segunda-feira do Estado. Um jingle levado ao ar na estreia do programa eleitoral de rádio e TV e trechos dos discursos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma, há dois dias, reforçaram o que os adversários classificam como "messianismo" da candidatura governista.

O primeiro sinal do novo tom da campanha foi o jingle que simula um "recado" de Lula a Dilma. "Deixo em tuas mãos o meu povo e tudo o que mais amei", diz o "presidente". Em outro momento, afirma que "as mãos de uma mulher vão nos conduzir". Na madrugada de segunda-feira, quando fazia campanha ao lado de Dilma na porta da fábrica da Mercedes Benz, Lula recorreu à Epístola de São Paulo aos Romanos: "Se Deus está conosco, quem está contra a gente?" A candidata, na mesma linha, falou em "compromisso sagrado" com os trabalhadores.

"O jingle final do programa de TV é a visão mais retrógrada, um retrocesso político. Uma visão coronelesca e messiânica, com a mensagem subliminar de que Dilma é a escolhida, a nomeada do presidente Lula", diz o deputado Jutahy Junior (PSDB-BA), do núcleo da campanha de José Serra.

"Ditos populares". Ligado a movimentos católicos desde jovem, o presidente do PT de São Paulo, Edinho Silva, nega a intenção de se dar um tom religioso à campanha. "O presidente recorre a ditos populares, usa a força de expressão para se comunicar com o povo, não é uma fala religiosa", sustenta. E separa a retórica da campanha da carta-compromisso assinada por Dilma, em que a candidata garante que, se eleita, não tomará iniciativas em defesa da legalização do aborto ou da união civil entre homossexuais e deixará o tema para o Congresso.

"Na carta, Dilma assumiu compromissos porque era preciso reagir à boataria sobre certas posições. Era preciso informar a sociedade", explica Edinho. "Dilma está lidando com o Brasil real. E há questões morais em que todas as religiões se encontram", diz a antropóloga Regina Novaes. O escritor Frei Betto não vê messianismo: "O presidente Lula é aquele paizão que fala em conceitos morais, que cobra, às vezes usa uma expressão chula que faz sucesso. Mas não quer dar a entender que é um enviado de Deus."

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