Campinas faz pesquisa sobre trabalho infantil

Pesquisa inédita desenvolvida pelo Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (Nepp) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) apontou que a maior parte das crianças e adolescentes que vendem miudezas nas ruas estuda, pertence a famílias estruturadas, vive longe das drogas, da delinqüência e é responsável pelo sustento da casa. "O estudo derrubou uma série de mitos", disse o coordenador do Nepp, Geraldo Di Giovanni. A pesquisa foi encomendada pela prefeitura, que indicou 12 pontos de concentração de menores trabalhadores, na região central de Campinas. Giovanni disse que dois foram descartados durante os trabalhos e outro, incluído. "Eles cobriram o universo de crianças e adolescentes que trabalham nas ruas da cidade", afirmou. Nesses locais, foram identificadas 242 crianças entre 5 e 16 anos de idade. Todas foram entrevistadas pelos pesquisadores entre novembro e dezembro do ano passado. "Não se tratou de uma pesquisa por amostragem", informou. O número não inclui crianças e jovens que fazem mendicância. Dos 242 pequenos trabalhadores, 171 moram em Campinas e o restante se desloca para a cidade, a partir de municípios vizinhos. Os 171 campineiros pertencem a 116 famílias, das quais apenas 39,7% dos pais estão empregados. No restante, são as crianças que apóiam o sustento da casa. Elas recebem em média, por dia, R$ 16,15, mas apenas 38,6% entregam todo o dinheiro para os pais. Giovanni explicou que as famílias ajudam os filhos a se instalarem em seus pontos, garantindo que eles não sejam invadidos. "É uma estratégia familiar de sobrevivência". Somente 4 crianças entregam o dinheiro a intermediários. Ao contrário do que se imagina, a maioria das crianças, 80,7%, estuda, sendo que 126 cursam o ensino fundamental, mas somente 16,7% apresentam adequação entre a idade e o nível escolar. Entre os pais e responsáveis, 72,4% têm ensino fundamental incompleto. Dos 30% de crianças que não vivem em Campinas, a maioria vem de Hortolândia, seguida de Monte Mor, Sumaré e Indaiatuba. "Esse dado revela que não se pode pensar em estratégia municipal isoladamente, mas é preciso atuar em conjunto", apontou o pesquisador. Ele enfatizou que não foi verificada nenhuma relação das crianças trabalhadoras com drogas e delinqüência. Segundo a prefeita Izalene Tiene (PT), o programa irá oferecer subsídios para a formulação de políticas públicas voltadas para a erradicação do trabalho infantil no município. "Estes dados vão nos ajudar a retirar estas crianças e adolescentes das ruas, além de nos ajudar em várias áreas", afirmou. Giovanni elogiou a parceria e comentou que a prefeitura tem "um corpo técnico de excelente nível" na área de assistência social. O lado oculto Giovanni se referiu à pesquisa concluída nesta semana como sendo a primeira etapa de um projeto mais amplo. Ele disse que os pesquisadores do Núcleo irão se reunir e avaliar a possibilidade de continuar os estudos para mapear também os pequenos trabalhadores "ocultos", que atuam como empregadas domésticas ou ajudantes de oficina de fundo de quintal. "Não existe uma metodologia para isso", apontou. Mas ele disse que o Nepp pretende investir no assunto. E ir adiante, até chegar nos níveis mais degradantes do trabalho infantil - a prostituição e as crianças que se prestam a entregar drogas, conhecidas como "aviões". "Certamente isso ocorre em Campinas", afirmou. Ele adiantou, no entanto, que o tema ainda será estudado.

Agencia Estado,

25 de abril de 2002 | 17h28

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.