Candidata pede '2º turno de mulheres'

Marina Silva afirma que o 'plebiscito' que está se desenhando só favorece PT e PSDB

, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2010 | 00h00

Marina Silva aproveitou a sabatina para convocar o eleitor a levar "duas mulheres para o segundo turno". Ela acredita que, com tempos iguais de propaganda eleitoral, tenha condições de enfrentar a candidata petista Dilma Rousseff "na exposição de ideias sobre crescimento e trajetórias de vida". "O plebiscito que estava se desenhando só favorece PT e PSDB", afirmou a senadora.

Os mundos "cor-de-rosa e azul" pintados por seus oponentes em suas campanhas também foram alvo de críticas da candidata verde, que relembrou sua saída do governo Lula e do PT, dizendo não sentir mágoa nem com relação ao presidente nem com Dilma, com quem travou grandes batalhas no Ministério do Meio Ambiente. "Não vou me fazer de vítima da Dilma, porque quem decidia era o presidente."

A vez das damas. Quero afirmar o princípio da democracia, da alternância de poder. No Brasil, não podemos buscar meios plebiscitários para manter determinados grupos no poder e desfavorecer o balanceamento democrático. Entrei no Partido Verde porque estava sendo colocada a ideia de um plebiscito, para favorecer a polarização entre PT e PSDB. Agora, há um movimento de ambas as partes incentivando o voto útil, querendo inutilizar o voto do eleitor no primeiro turno. E eu tenho dito: vamos levar, sim, a eleição para o segundo turno. Se o Brasil quer duas mulheres para a Presidência, vamos para o segundo turno, para que, com tempos iguais, possamos expor nossas ideias e trajetórias e o eleitor possam fazer sua escolha. Se podemos pensar duas vezes, por que decidir de forma açodada? Quem ganhar vai ganhar duas vezes. E quem votar vai ter a chance de escolher duas vezes.

Cores. Quando termina a novela e começa a propaganda eleitoral, aparece um mundo cor-de-rosa, que só se manterá com a ministra Dilma, e um mundo azul que só existe com o governador Serra. Estou dizendo que existem várias matizes desse mundo brasileiro. Tem o verde, mas tem também o cinza, que está muito forte nos cerca de 40% de crianças e adolescentes que entram no ensino fundamental e não chegam à oitava série. Está muito difícil na falta de planejamento de infraestrutura no Brasil. As duas propagandas não estão considerando esses desafios.

Utopia da coalizão. Não é utópico imaginar ser possível governar com gente boa de todos os partidos. Tanto que a concorrência se trai. No debate em Minas Gerais, José Serra já convidou a mim e Dilma para fazer parte de seu governo. Eles assimilaram rapidamente a tese. Também a Dilma disse que vai estender a mão para os perdedores. Não sei se ela já está antecipando a mão. A coalizão é uma tese que precisa de construção, de honestidade política. Onde nós vamos chegar se continuarmos com esse festival de incoerência? A título de exemplo, sem entrar no mérito do imposto que é a CPMF: na época de FHC, a CPMF era a panaceia para resolver os problemas da saúde. O PT era contra. Eu e o (Eduardo) Suplicy votamos a favor mesmo com orientação de votar contra. Depois, o PT chegou ao governo e o PSDB passou a ser contra a CPMF e o PT a favor.

Saída do governo. Minha saída tem a ver com a falta de compreensão de que o grande desafio era fazer a inflexão no modelo de desenvolvimento. Entramos no governo com essa diretriz. Quando começamos a trabalhar com outros ministérios, isso criou alguns questionamentos. A gota d"água foi quando tentaram revogar as medidas de combate ao desmatamento. Isso criou uma grita grande na Amazônia - principalmente Mato Grosso e Rondônia tiveram atitudes muito fortes de desqualificar as medidas. Os ministros Mangabeira Unger e Reinhold Stephanes foram aos poucos convencendo o presidente Lula de que nossas medidas eram exageradas.

Mágoa de Lula e de Dilma. Não tenho mágoa de ninguém. Depois de minha saída do governo, me encontrei com o presidente umas três vezes e conversamos. As pessoas tendem a colocar as questões como se fossem entre Marina e Dilma. Não é assim. Quem está na Casa Civil lida com os interesses de várias pastas - Transportes, Minas e Energia, Agricultura. Não era uma questão particular da ministra Dilma, mas majoritária no governo. Não vou me fazer de vítima da ministra, porque quem decidia era o presidente. E na maioria das vezes ele decidiu favoravelmente a mim. Quando percebi que ele decidiria contra, em uma questão que era crucial, pedi para sair.

Lealdade do vice. O vice-presidente José Alencar é um grande homem. Sempre teve honestidade e lealdade comoventes. O presidente Lula passou por uma de suas piores crises, a do mensalão, e quem segurou esse processo se chama José Alencar.

Relação com o MST. Lutas sociais devem ser respeitadas por todos os governos, salvaguardando a autonomia dos movimentos sociais. Não concordo com a tese de que seja necessário criminalizar os movimentos sociais. Cada movimento tem de se enquadrar nas regras democráticas do Estado brasileiro. / D.B. e F.T.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.