Candidato oficial, Serra sobe o tom e ataca ''neocorruptos'' e aparelhamento

Sucessão. Na convenção do PSDB em Salvador, tucano critica líderes que tentam personificar o Estado - 'nas democracias não há lugar para luíses' -, fala em 'verdades eternas' e acusa atual governo por baixo investimento, juros altos e muitos impostos

Julia Duailibi, Luciana Nunes Leal, Christiane Samarco e Tiago Décimo, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2010 | 00h00

  

 

Em campo. Durante convenção do PSDB em Salvador, Serra veste a camisa da seleção brasileira com o número do partido, 45

 

     Na intervenção mais contundente feita em público, o candidato tucano à Presidência da República, José Serra, criticou ontem duramente o apadrinhamento, o aparelhamento do Estado e os políticos "neocorruptos". No discurso, na Convenção Nacional, ele disse que o Congresso não pode ser uma "arena de mensalões, compra de votos e de silêncio".

Se eleito, o tucano prometeu ser "intransigente" com valores que ele chamou de "verdades eternas" do Estado de Direito. Apresentou-se como candidato que não tem "máquinas oficiais, patotas corporativas, padrinhos e esquadrões de militantes pagos com dinheiro público".

Sem mencionar explicitamente o nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Serra comparou as suas "crenças" com as práticas de oito anos de PT no poder, disse que os chefes de governo não podem acreditar que personificam o Estado e, citando Luís XIV, acrescentou: "Nas democracias e no Brasil, não há lugar para luíses." O rei absolutista governou a França entre 1643 e 1715.

Além da crítica a quem "desdenha a democracia nas ações diárias", Serra disse que o Brasil precisa se afastar de "três recordes internacionais": uma das menores taxas de investimento público do mundo, a maior taxa de juros do mundo e a maior carga tributária de todo o mundo em desenvolvimento.

O tucano repetiu a biografia apresentada na pré-convenção, em Brasília, em abril passado, falou do político de origem pobre e que estudou em escola pública, e concluiu: "Não comecei ontem, não caí de paraquedas", E ainda: "Comigo, o povo brasileiro não terá surpresas."

"Acredito". Ao longo do discurso, Serra citou 12 vezes a palavra "acredito" para se diferenciar do governo Lula e do PT. Também citou nove "necessidades e esperanças" que considera serem objetivos da "maioria dos brasileiros".

Na lista das crenças, ao dizer que a democracia não pode ser utilizada como um "instrumento tático", acrescentou que esse é o regime e o caminho para melhorar a vida das pessoas. "Não é com o menosprezo ao Estado de Direito e às liberdades que vamos obter mais justiça social duradoura."

Ao tratar dos sindicatos, cooptados pelo governo Lula com a legalização das centrais e a distribuição do imposto sindical pago pelos trabalhadores, Serra criticou as "organizações pelegas sustentadas com dinheiro público" e defendeu a liberdade de imprensa e de organização social - que não devem, afirmou, ser "intimidadas, pressionadas e patrulhadas pelos governos e partidos" .

Ao subir o tom das críticas, reforçando o papel de adversário da atual gestão petista, o tucano fez inflexão em relação à posição de cautela adotada na fase de pré-campanha e durante os mais de três anos em que comandou o Palácio dos Bandeirantes.

"Quem justifica deslizes morais dizendo que está fazendo o mesmo que os outros fizeram ou que foi levado a isso pelas circunstâncias deve merecer o repúdio da sociedade. São os neocorruptos", declarou o candidato diante de uma plateia de cerca de 5 mil pessoas, no Clube Espanhol, em Salvador.

Ex-ministro do governo Fernando Henrique Cardoso, ex-prefeito de São Paulo e ex-governador, Serra enfatizou a sua trajetória - uma das estratégias do PSDB é a comparação de biografias. Sem citar a adversária Dilma Rousseff (PT), o tucano falou sobre falta de experiência política da petista, que nunca disputou eleição. Foi quando disse a frase: "Não comecei ontem e não cai de paraquedas."

Ditadores do mundo. No discurso de cerca de 40 minutos, falou também de política externa. "Acredito nos direitos humanos dentro do Brasil e no mundo. Não devemos elogiar continuamente ditadores de todos os cantos do planeta só porque são aliados eventuais do partido do governo." Foi uma referência direta à aproximação do governo Lula com Irã, Cuba e Venezuela.

Sempre para se demarcar das práticas do governo do PT, Serra criticou o "desprezo" da atual gestão pelos órgãos de controle, como Ministério Público e Tribunal de Contas da União. "Prezo as instituições que controlam o Poder Executivo, como os tribunais de contas e o Ministério Público, que nunca vão ser aprimoradas por ataques sistemáticos de governos que, na verdade, não querem ser controlados."

O tucano fez promessas para as áreas de educação e saúde. Disse que, se eleito, abrirá 1 milhão de vagas em escolas técnicas. Falou em reforçar o Bolsa-Família, na construção de 150 Ambulatórios Médicos de Especialidades em todos os Estados e advertiu que é preciso "deter o retrocesso na saúde pública".

Citou, ainda, a necessidade de o próximo governo dar "escola decente" e segurança pública a todos os cidadãos.

 

 

 

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