Candidatos de SP escorregam em números

No confronto sobre salário de médico com Alckmin, Russomanno mostrou holerite de R$ 487,72, sem citar que há outro contracheque mensal

ROBERTO ALMEIDA, FABIANE LEITE e SIMONE IWASSO, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2010 | 00h00

Exemplo máximo da disputa numérica que marcou o debate da TV Bandeirantes, realizado anteontem, o candidato ao governo de São Paulo Celso Russomanno (PP) apresentou o holerite de um médico, com salário-base de R$ 487,72, para atacar Geraldo Alckmin (PSDB) sobre os vencimentos pagos pelo Estado.

O desafio de Russomanno a Alckmin, no entanto, resultou em uma batalha de números sem vencedor. Para rebater o pepista, Alckmin disse que médicos da rede estadual recebem R$ 600 adicionais por plantão. Em ambos os casos, os candidatos estão corretos, mas nenhum tocou a raiz do problema.

Russomanno não informou no debate, por exemplo, que o dono do holerite apresentado é o ex-tecladista da banda Polegar Alan Frank Schlang Rodrigues Alves, hoje oftalmologista.

E que, além de ex-tecladista, Alan do Polegar foi candidato a deputado estadual pelo mesmo partido de Russomanno, o PP, em 2006, e recebeu uma doação eleitoral de R$ 400 do próprio candidato para sua campanha.

Dois holerites. De acordo como o Conselho Regional de Medicina (CRM), Alan do Polegar recebe dois holerites por mês, em datas diferentes. Um com o salário-base e as gratificações - apresentado durante o debate - e outro com o Prêmio Incentivo em torno de R$ 350, ou com valor maior, se o profissional ocupar um cargo comissionado.

De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, a informação de que um médico da rede estadual ganhe R$ 487,72 por mês é "mentirosa". E sublinhou os valores pagos por plantão, assim como fez Alckmin durante o debate.

"É importante ressaltar que este mesmo médico pode realizar, ainda, 12 plantões presenciais por mês, recebendo R$ 660 em cada um deles. Isto significa que este médico pode receber R$ 7,9 mil a mais, totalizando R$ 13 mil de rendimento mensal", afirmou a secretaria, em nota.

Contudo, os extras recebidos na rede estadual, como os bônus por plantão, são conhecidos no meio médico como "penduricalhos". Um profissional que apresentou seus holerites ao Estado, mas não quis ser identificado, demonstrou a situação dramática em que se encontrou quando entrou em licença de trabalho, em 2006.

Ele estava com câncer e perdeu a maioria dos adicionais. Seu salário bruto de R$ 2.391,69 ficou em líquidos R$ 359,49, enquanto estava em licença. Desprovido economicamente, ele não conseguia sustentar a família e nem mesmo pagar os medicamentos. "E justo na hora em que mais precisava", reclama.

Escolas. Entre os números apresentados sobre a educação no Estado, Alckmin disse que fez, em seu mandato como governador, 500 escolas de período integral. O candidato do PSB, Paulo Skaf, por sua vez, disse que há apenas 300 em funcionamento.

Alckmin preferiu exaltar o número de escolas de seu mandato, mas não citou que foram reduzidas na gestão de José Serra (PSDB) no governo do Estado. Segundo informações da Secretaria Estadual de Educação, existem atualmente 330 escolas em período integral em São Paulo.

O candidato do PT, Aloizio Mercadante, exaltou números do programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, durante o debate. Disse que "está fazendo" 104 mil casas populares no Estado.

Dados da Caixa mostram que as obras para as unidades foram apenas contratadas. Não há informações disponíveis de quantas foram entregues.

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