Candidatos escondem a alma, sob a ditadura do marketing

O conjunto de entrevistas do Jornal Nacional com os candidatos bem poderia ter o título Onze Minutos, do livro do escritor Paulo Coelho, que estipula esse o tempo para se atingir o orgasmo.

Análise: João Bosco Rabello, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2010 | 00h00

A Globo deu mais um minuto, mas nenhum candidato logrou uma performance que fizesse jus ao cronômetro do eleitor. Este, voyeur involuntário, passivo e compulsório, ficou esperando um clímax que jamais aconteceu. E de improvável finalização.

Pelo menos no plano da discussão de propostas político-eleitorais, esse tempo é insuficiente para um orgasmo cívico. O sistema favorece, tanto no contexto dos debates quanto no das entrevistas, a abordagem marqueteira dos temas, levando os candidatos a uma atitude de quem, numa camisa de força, tem no menor movimento uma sensação de vitória.

Tipo, acabou meu suplício. Nada pior num debate do que a regra do tempo. É necessário? É. Mas o tempo, cada vez menor, premia a abordagem superficial em que o alvo - nesse caso, o voyeur -, para quem a festa é realizada, fica a ver navios.

Nesse contexto, resta a performance, em detrimento do conteúdo. Vive-se a síndrome do pânico a cada pergunta - não pelo seu conteúdo, ou dificuldade em respondê-lo, mas pelo risco de não fazê-lo a tempo.

Em tal contexto, vigora a experiência. As candidatas Dilma Rousseff e Marina Silva perdem nesse quesito para José Serra. A agravar a situação, a constatação de que as questões postas aos três fugiram à lógica ao cobrar de Marina e Serra o mensalão, tema muito mais apropriado à candidata do PT, na medida em que participou do governo cuja base de sustentação o protagonizou, e do qual se apresenta como a continuidade.

Serra venceu o campeonato das entrevistas globais, por ser capaz de racionalizar o tempo de abordagem de cada tema - mas foi performance. A alma política continua sendo uma dívida dos candidatos com o eleitor, que anseia por algo além das respostas curtas e objetivas, que colocam os candidatos na defensiva, disputando quem o leva para a cama.

Mas o eleitor quer mesmo é casar - com quem lhe dá mais afeto, segurança e futuro.

O eleitor não quer a performance dos 11 minutos. Quer posição, quer lado, quer consistência. Quer os 11 minutos dentro da estabilidade social.

Numa síntese, as circunstâncias de tempo, e de marketing, associadas a uma limitação legal, tiraram das campanhas a alma política que se espera ver nos candidatos. Restou o passionalismo, inimigo do equilíbrio e das soluções.

É DIRETOR DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

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