'Canibais de Garanhuns' são condenados no Recife depois de 6 anos

Trio foi acusado de comer partes do corpo de uma moradora de rua em 2008; eles pegaram de 19 a 21 anos e seis meses de reclusão

Monica Bernardes, especial para O Estado de S. Paulo

14 de novembro de 2014 | 21h26

RECIFE - O trio que ficou conhecido como "os canibais de Garanhuns" foi condenado na noite desta sexta-feira pelo homicídio quadruplamente qualificado, ocultação de cadáver e vilipêndio (canibalismo de partes do corpo) da moradora de rua Jéssica Camila da Silveira Pereira, de 17 anos. O crime aconteceu em maio de 2008 em Olinda, na Região Metropolitana do Recife.

O julgamento de Jorge Beltrão Negromonte da Silveira, 52 anos, Isabel Cristina Torreão Pires, 53, e Bruna Cristina Oliveira da Silva, 28, começou na quinta-feira e só foi concluído nesta sexta, após mais de 40 horas de sessão, no Fórum de Olinda. Após a decisão do júri - formada por quatro mulheres e três homens - a juíza Maria Segunda Gomes de Lima, sentenciou os réus a penas entre 21,6 e 19 anos de reclusão.

Jorge foi condenado a 21 anos e seis meses de reclusão em regime fechado, mais um ano e seis meses de detenção e 320 dias de multa. Isabel, esposa de Jorge, foi condenada a 19 anos de reclusão. Bruna, amante de Jorge, foi condenada a 19 anos de reclusão e um ano de detenção. 

O trio é acusado também, em outro processo, pelos mesmos crimes contra outras duas mulheres identificadas como Giselly Helena da Silva, 21, e Alexandra da Silva Falcão, 20, cujas ossadas foram encontradas na casa onde o grupo morava, em 2012, no município de Garanhuns, no Agreste pernambucano.

Durante todo o dia aconteceu o debate entre a defesa e a acusação. Primeiro, a argumentação inicial e na sequência, réplica e tréplica. De um lado a defesa dos acusados, que alegava a existência de problemas mentais e fragilidades emocionais dos réus. Do outro, a promotoria, que insistia na tese de que os acusados tinham consciência dos crimes e que agiram por maldade, sob o domínio de plenas faculdades mentais.

No início dos trabalhos, a primeira a falar foi a promotora Eliane Gaia, que discorreu por mais de duas horas sobre os crimes cometidos pelo trio e defendeu a tese de que o grupo tinha plena consciência da gravidade dos atos que cometeram e que tentavam "enganar" à sociedade fingindo problemas mentais, contrariando os argumentos usados pela defesa. Ela chegou a se dirigir diretamente a Jorge. "Você não vai manipular a Justiça. Você será condenado". Em um dos momentos mais tensos de sua fala, a promotora pediu a intervenção da corte para que a ré Isabel Cristina parasse de "resmungar" durante sua apresentação.

"Nunca antes tínhamos visto um caso de canibalismo aqui. Com requintes de perversidade e maldade. Para isso, eles tiveram piedade da vítima? Não! O louco não premedita o crime, como eles fizeram. Eles planejaram, articularam. Eles são inteligentes e frios", afirmou, olhando para os jurados, para em seguida completar. "As provas estão aí e elas são fartas. Os senhores são soberanos para julgar os fatos. Utilizem essa soberania para fazer justiça", concluiu.

Em sua réplica, Eliane Gaia lembrou a frieza do grupo ao praticar, além dos crimes já citados, o roubo da identidade de Bruna e adoção fraudulenta da filha da vítima, que passou a ser criada como filha de Jorge e Bruna e fez um alerta ao júri. "Caiam nessa, excluam a culpabilidade, reduzam a pena. É isso que o Jorge quer. Ou seja, mata, come e vai para casa de tratar", disparou para em seguida completar. "Gostaria que vocês pensassem na vida diferente que Jéssica teria se ela não tivesse conhecido esses três. Eu queria um futuro diferente para a filha de Jéssica, que está com vários problemas psicológicos hoje. Uma criança de sete anos de idade que conta com riqueza de detalhes os crimes que eles cometeram", finalizou. Segundo Jorge, a menor, que na época tinha um ano de idade, teria presenciado o assassinato da mãe e ingerido sua carne, em várias ocasiões. 

Defesa. A defensora pública Tereza Joazy, representante de Jorge Beltrão, insistiu na tentativa de convencer o júri sobre a existência de "dificuldades mentais" de seu cliente. O exame de sanidade mental - realizado por profissionais do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico de Pernambuco (HCTP), que afastou a existência de problemas relativos à sanidade mental do trio - foi contestado pela defensora. "Se Jorge não tiver nenhuma deficiência, para tudo que está ai, eu vou dizer uma coisa: tem que matar, que é bicho", disparou. A advogada lembrou que Jorge frequentou o Centro de Apoio Psicossocial de Garanhuns (Caps) em Garanhuns, desde o ano seguinte à morte da vítima. "Ele tinha alucinações, delírios e outros sintomas", destacou ao afirmar que estes seriam "sinais esquizofrenia. Do jeito que está ele não vai se recuperar nunca. Ele precisa de tratamento", concluiu. 

Além da tentativa de demonstrar fragilidade mental de suas clientes, os advogados de Isabel Cristina e Bruna Cristina - respectivamente esposa e amante do réu - dividiram a tese que Jorge seria o líder do grupo e as mulheres só cometeram os crimes porque eram dependentes (emocional e financeiramente). Para o advogado Paulo Sales, defensor de Isabel, a mulher foi levada a cometer os crimes por amor ao marido, com quem vive há mais de 30 anos. "A defesa não nega que houve participação. Isabel levou Jéssica para casa, inicialmente com a intenção de criar a filha da vítima. Mas como ela iria se negar a participar de tudo sem que acabasse ela própria se tornando uma vítima de Jorge", questionou. 

Paulo Sales pediu ao júri que fosse excluída a culpa de Isabel pelo assassinato, esquartejamento e ocultação do cadáver de Jéssica. Apesar das afirmações do advogado, durante boa parte do julgamento, Isabel fez carinho nas mãos, costas e pernas de Jorge, intercalando momentos de choro e serenidade. Sempre que alguma acusação da promotoria se referia a ele, ela balançava a cabeça em sinal de desaprovação.

O advogado de Bruna Cristina - amante de Jorge há cerca de 10 anos - Rômulo Lyra, também culpou a influência de Jorge Beltrão, sobre sua cliente, o que teria feito com que ela se sentisse obrigada a participar dos crimes de assassinato, esquartejamento, ocultação de cadáver e canibalismo. "Jorge dizia: matai e comei para purificar mais o mundo. O poder dele sobre a Bruna era tão grande que ela acabava fazendo tudo o que ela queria", afirmou. Ainda segundo Lyra, sua cliente tinha receio de se transformar em vítima de Jorge e Isabel, caso se negasse a seguir as ordens. "A Bruna conheceu Jorge aos 16 anos, quando ele era instrutor em uma academia de artes marciais no Rio Grande do Norte. Aos 18 ela foi embora da cidade com o casal, passando a viver em um triangulo amoroso. Ela era sim uma potencial vítima de um homem que já havia a agredido e ameaçado", destacou.

Apesar da tentativa de seu advogado de passar uma imagem frágil, Bruna não demonstrou nenhum sinal de nervosismo durante o julgamento. Em vários momentos chegou, inclusive, a sorrir. Em inúmeras ocasiões, recebeu (e retribuiu) carinhos de Jorge. Os argumentos apresentados pela defesa, durante a primeira fase do debate, foram insistentemente repetidos na tréplica.

A pesquisadora e escritora na área de violência e criminalidade e uma das maiores especialistas em serial killers do Brasil, Ilana Casoy, também marcou presença na sessão. Ela pretende fazer um documentário sobre o caso.

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