Gabriela Biló/Estadão - 12/03/2019
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Cardeal d. Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo, morre aos 87 anos

Arcebispo emérito foi nome forte na Igreja Católica e próximo do papa Francisco; também liderou Sínodo da Amazônia e denunciou necessidade de mudanças para combater crise climática

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2022 | 11h27
Atualizado 04 de julho de 2022 | 15h37

Arcebispo emérito de São Paulo, o cardeal d. Cláudio Hummes morreu aos 87 anos na manhã desta segunda-feira, 4. Nome forte na Igreja Católica, foi bastante próximo do papa Francisco e até cotado para assumir o posto mais alto do Vaticano no conclave de Bento XVI. Mais recentemente, liderou o Sínodo da Amazônia e era engajado em temas ligados à floresta e na defesa de mudanças para combater a crise climática. "A Terra não aguenta mais", chegou a declarar. 

O corpo será velado na Catedral Metropolitana de São Paulo, das 19 horas desta segunda até as 10 horas de quarta-feira, 6.  No mesmo local, missas por d. Hummes serão presididas pelo cardeal d. Odilo Scherer nesta segunda, às 20 horas, na terça-feira, às 12 horas, e na quarta-feira, às 10 horas, após a qual ocorrerá o sepultamento na cripta da Catedral. Segundo a Arquidiocese de São Paulo, a morte ocorreu após “prolongada enfermidade”.

Gaúcho de Salvador do Sul, quando integrava o município de Montenegro, ingressou na Ordem Franciscana dos Frades Menores aos 17 anos, tendo passado pelas ordenações sacerdotal e episcopal respectivamente em 1958 e 1975. Foi arcebispo de São Paulo e Fortaleza e bispo de Santo André e, em 2001, foi nomeado cardeal. Quando ocupou o cargo no ABC paulista, desafiou o regime militar e abriu as portas das igrejas da região para os trabalhadores em greve no fim da década de 1970 e início dos anos 1980.

D. Cláudio era então arcebispo de São Paulo quando ocorreu o “Massacre da Sé”, em que dez pessoas em situação de rua foram atacadas, seis delas mortas, em 2004. Liderança da Pastoral do Povo da Rua, padre Júlio Lancellotti falou ao Estadão nesta segunda sobre a atuação do cardeal naquele momento.  “Foi comigo nos hospitais, acompanhou tudo aquilo muito de perto. Foi sempre um grande aliado de grandes causas do povo pobre, da população de rua, dos indígenas”, afirma. "O legado de d. Cláudio é o amor aos pobres.”

Em 2013, o próprio papa Francisco atribuiu ao cardeal a inspiração para a escolha do nome que usaria à frente da Igreja. Segundo Jorge Bergoglio disse em entrevista, quando ficou claro que o seria escolhido pelo conclave, ouviu de Hummes: “Não se esqueça dos pobres”. Ao escutar as palavras do amigo brasileiro, o pontífice pensou em São Francisco de Assis, conhecido pela defesa dos pobres. 

Naquele ano, o cardeal brasileiro falou sobre a importância da escolha de um latinoamericano como papa. "Eles fizeram isso, os cardeais. Dentro de um dia e meio, fizeram essa revolução. A mídia do mundo inteiro ficou surpresa", declarou. Veja um trecho abaixo:

Em 2019, foi relator geral da Assembleia Especial do Sínodo para a Igreja Católica na Amazônia, realizada pelo Vaticano de 6 a 27 de outubro. Na época, o cardeal também presidia a Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) e a Comissão Pastoral para a Amazônia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). "A vida na Amazônia talvez nunca tenha estado tão ameaçada como hoje", declarou no início do evento. 

À epoca, o religioso citou a Amazônia 29 vezes ao longo da fala, na qual destacou que a floresta corre riscos "pela destruição e exploração ambiental, pela violação sistemática dos direitos humanos elementares da população amazônica, de modo especial a violação dos direitos dos povos indígenas, como o direito ao território, à autodeterminação, à demarcação dos territórios e à consulta e ao consentimento prévios".

Ele também mencionou o "contexto de uma grave e urgente crise climática e ecológica que atinge todo o nosso planeta". "O aquecimento global, pelo efeito estufa, gerou uma crise climática sem precedentes, grave e urgente", declarou. "Ao mesmo tempo, ocorre no planeta uma devastação, depredação e degradação galopante dos recursos da terra, promovidas por um paradigma tecnocrático globalizado, predatório e devastador", continou. "A Terra não aguenta mais."

A atuação por mudanças sociais também foi uma marca na trajetória do arcebispo. Também em 2019, abriu a cerimônia de renovação do histórico Pacto das Catacumbas, em que a Igreja assume sua opção preferencial pelos pobres, com críticas à ganância por bens materiais: “Todas as grandes maldades do mundo são por causa do dinheiro; é a corrupção, é o roubo, guerras, conflitos, são mentiras. Tudo para juntar dinheiro, para ganhar dinheiro às custas de qualquer coisa. O dinheiro é o grande inimigo de Jesus, pois você não pode servir a Deus e ao dinheiro.”

Na cerimônia, Hummes usava uma estola que pertenceu ao arcebispo brasileiro d. Helder Câmara, também ligado a causaas sociais. “É uma relíquia e eu me sinto muito emocionado por estar usando”, disse à época. “A figura de dom Hélder no Vaticano 2.º recordando sempre que a Igreja não pode se esquecer dos pobres.”

Em entrevista ao Estadão, em 2019, disse que a Igreja não tem lado político e defendeu causas sociais, como dos povos indígenas. “Os direitos humanos devem ser aceitos por todos”, ressaltou.

Além disso, abordou a necessidade de ações contra as mudanças climáticas e comentou sobre a impunidade de quem comete crimes contra a Amazônia. "A opinião pública, a sociedade civil, tem que ser alimentada para que possamos ser um País que assume responsabilidades, responsabilidades históricas, pelo planeta", declarou. Veja trechos abaixo:

O arcebispo também trabalhou de 2006 a 2011 ao lado do Papa Bento XVI, em Roma, como prefeito da Congregação para o Clero. À época, foi responsável por mais de 400 mil sacerdotes nos cinco continentes e enfrentou questões graves, como casos de pedofilia e a laicização de padres deixavam o sacerdócio.

Durante décadas, foi nome atuante na reivindicação de soluções para problemas sociais. Em 2002, por exemplo, chegou a se encontrar com o então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) para apresentar um plano de combate ao desemprego.

Escreveu artigos periodicamente para o Estadão durante anos, cuja seleção de 110 textos foi reunida no livro Diálogo com a Cidade (da editora Paulus). 

‘Achava que, mesmo imerso em grandes crises, como vivemos agora, temos que ter esperança’

A quem via como um irmão, d. Angélico Sândalo, de 89 anos, descreve d. Hummes como uma pessoa que viveu um “testemunho de amor à Igreja e ao povo”. “Ele era muito acolhedor, muito amigo”, conta o hoje bispo emérito de Blumenau.

Bispo auxiliar de São Paulo e ligado à Pastoral Operária durante o período em que d. Hummes foi arcebispo, d. Sândalo conhecia o cardeal desde 1975. Por décadas, cultivaram uma amizade, cujo contato seguiu até o fim de vida, mais recentemente por ligações de telefone. 

“Mesmo enfermo, diversas vezes tive contato com ele. Estava cheio de esperança. Nunca teve palavras de desânimo. Ele achava que, mesmo imerso em grandes crises, como vivemos agora, temos que ter esperança”, comenta. “Ele nos deixa um exemplo vivo de um discípulo missionário de Jesus, totalmente dedicado à causa da verdade, do amor fraterno, da solidariedade, de uma economia realmente solidária.”

D. Sândalo descreve d. Hummes como uma figura atenta ao que ocorria no mundo e “muito dedicado” e “incansável”. “Ele era sintonizado”, resume. 

“Já apoiou os trabalhadores que estavam lutando pacificamente por seus direitos (no período militar)”, recorda-se. “(Nos últimos anos) Acompanhava vivamente, até o fim, a situação na Amazônia, desejando que ali reinasse a Justiça, o respeito aos povos indígenas, aos quilombolas, o respeito ao meio ambiente, à floresta, aos rios. Ele foi um batalhador nesse sentido”, aponta.

Autoridades lamentam morte de d. Cláudio Hummes

Autoridades e organizações de diferentes esferas políticas lamentaram a morte do arcebispo. A atuação social e em defesa da Amazônia foi lembrada.

Em nota assinada por seu presidente, D. Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo de Belo Horizonte, a CNBB recordou a trajetória do cardeal. "Desde o início do seu ministério episcopal, contribuiu na missão desta Conferência Episcopal nas dimensões do Ecumenismo, dos leigos, da família, da cultura e, mais recentemente na realidade da Amazônia. Também atuou por vários anos à frente da Pastoral Operária."

Também nota, o cardeal d. Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, pediu preces em “agradecimento pela vida operosa do falecido Cardeal Humme”. “Deus acolha em suas moradas eternas nosso irmão falecido, cardeal Cláudio Hummes, e faça brilhar para ele a luz eterna.”

A Diocese de Montenegro se pronunciou sobre as raízes do cardeal. "Dom Cláudio Hummes é filho da nossa terra. Nasceu em Salvador do Sul, então município de Montenegro. É um discípulo de Cristo, modelado no espírito franciscano, se fez frade, tornou-se bispo e cardeal da Igreja", diz comunicado assinado por d. Carlos Romulo Gonçalves e Silva, bispo de Montenegro.

Já o governador Rodrigo Garcia (PSDB) se pronunciou em rede social: “Sua ação e fé fortaleceram a Igreja Católica. Que sua trajetória de dedicação a Deus e ao povo continue a nos servir de exemplo e inspiração."

O presidente de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB) também se pronunciou. “O Brasil perdeu hoje um líder religioso fundamental que dedicou sua vida à da população mais vulnerável e da preservação ambiental com a passagem do cardeal Dom Cláudio Hummes.” Já o ex-prefeito da capital paulista Fernando Haddad (PT) lembrou da trajetória do arcebispo. “Fica seu exemplo de fraternidade e amizade social que não se limitou a palavras", publicou.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lembrou do apoio aos metalúrgicos durante o regime militar. "Lutou pela preservação da Amazônia e pela demarcação das terras indígenas. Durante as greves do ABC, nos anos 70, desafiou a ditadura abrindo as portas da diocese de Santo André aos operários, para protegê-los da repressão", destacou em rede social.

O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC também destacou o apoio histórico. “O Bispo, muitas vezes, abriu as portas da Catedral de Santo André para as assembleias, presidiu missa com a participação da categoria e posicionou-se corajosamente contra as demissões dos trabalhadores. Passou toda a vida dedicando-se ao povo brasileira. Deixa um legado inestimável de misericórdia, resistência e luta contra as injustiças sociais.

Em nota, o senador Tasso Jereissati (PSDB) destacou o legado do cardeal, que disse ter sido "a pessoa que conheci mais próxima do que se possa entender por Santidade". "E assim foi a vida de D.Claudio, que reconhecia no rosto dos mais humildes, seja o morador de rua, seja o favelado, seja o desempregado ou mesmo o trabalhador com salários ultrajantes, mulheres e crianças marcadas pela fome e desespero, a mesma face do Cristo Salvador."

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