Cardeal do Brasil defende acolhida a casais gays

Arcebispo de Aparecida abriu discussão sobre ‘situações familiares difíceis’ em Sínodo e disse que a Igreja é a casa paterna para todos

Monica Reolom, O Estado de S. Paulo

08 Outubro 2014 | 23h29

O cardeal brasileiro d. Raymundo Damasceno Assis defendeu ontem na assembleia do Sínodo Sobre a Família, no Vaticano, que a Igreja se mostre como “casa paterna” e acolha “situações familiares difíceis”, como a de uniões homossexuais.

Arcebispo de Aparecida, d. Raymundo analisou ontem a possibilidade de “acompanhar” e mostrar proximidade em relação às pessoas de mesmo sexo, já que “a Igreja é a casa paterna, em que há espaço para todo mundo”. Ele ficou encarregado do discurso introdutório justamente da sessão do Sínodo que discutiu as situações familiares difíceis – em que se encontram todos os casais que não seguem rigidamente a doutrina católica. Assim como em relação às uniões homossexuais, essas são situações “que requerem o acompanhamento da Igreja”.

Na intervenção, citou o papa Francisco para destacar que a Igreja deve aprender a arte do acompanhamento para “dar a nosso caminho o ritmo saudável da proximidade, com uma visão respeitosa e cheia de compaixão, mas ao mesmo tempo sadia, livre e alentadora para amadurecer a cristã”. Em sua viagem ao Brasil, Francisco não fugiu do tema. “Se uma pessoa é homossexual e procura Deus e a boa vontade divina, quem sou eu para julgá-la?”, disse na ocasião. “Os homossexuais não devem ser marginalizados por causa de o serem, mas devem ser integrados à sociedade.” Dom Raymundo informou que “a relação entre pessoas do mesmo sexo” foi discutida no Sínodo, em relação ao reconhecimento civil dessa uniões, aos valores da Igreja e a algumas orientações pastorais.

Membro da Associação Internacional de Lésbicas e Gays (ILGA), Beto de Jesus considerou positiva a posição de d. Raymundo. “A Igreja contribui e colabora com o discurso homofóbico. Essa declaração significa um avanço e é importante porque existem gays e lésbicas católicos que não se sentem acolhidos em suas comunidades”, afirma. “Vejo essa declaração como um avanço na garantia de direitos e de revisão das posturas discriminatórias da Igreja.”

Outros casos. A ênfase do papa Francisco em uma Igreja misericordiosa vem influenciando o Sínodo, segundo observadores. Os participantes do encontro têm destacado uma Igreja em que os fiéis “devem ser os melhores católicos que possam ser, ainda que não necessariamente perfeitos”. Os prelados vêm se referindo ao conceito teológico da “lei da gradualidade”, que incentiva os fiéis a alcançarem a santidade “passo a passo”. Esse conceito antigo havia sido abandonado nos dois pontificados anteriores.

O conceito ainda tem sido aplicado a casais que se relacionam fora do matrimônio, agregado ao chamado aos padres para que não os condenem. O cardeal Peter Erdo, organizador do Sínodo, já defendeu que o conceito seja aplicado em relação aos métodos de contracepção artificial – que são condenados pela Igreja. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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