Alessandra Tarantino/AP
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Cardeal quer se encontrar com vítimas de abuso por padres

No terceiro dia de depoimento, comissão não aceitou alegações de George Pell de que não tinha conhecimento dos casos na Austrália

Edison Veiga, O Estado de S. Paulo

02 de março de 2016 | 08h45

SÃO PAULO - O cardeal australiano George Pell afirmou, em comunicado divulgado na noite desta terça-feira, 1º, que ficaria feliz em se encontrar, privadamente, com grupos de pessoas de seu país que foram vítimas de abuso sexual quando crianças. Desde a noite de domingo, 28 - manhã de segunda-feira, 29, na Austrália -, ele tem dado longos depoimentos a uma comissão de investigação sobre os casos de pedofilia praticados por padres em seu país. 

Contra o purpurado, não pesa nenhuma denúncia do tipo - seu depoimento tem como objetivo determinar as práticas e respostas adotadas pelas instituições católicas australianas diante das denúncias de pedofilia entre os anos 1970 e 1980 no país. Pell, atualmente com 74 anos, é o atual prefeito da Secretaria de Economia do Vaticano e já foi arcebispo de Melbourne e de Sydney. 

Na noite desta terça-feira - manhã de quarta-feira, 2, na Austrália -, ele foi interpelado pela terceiro dia consecutivo. A audiência novamente foi feita por videoconferência, com o purpurado em um hotel de Roma. Sua saúde frágil o impediu de viajar ao país natal.

A comissão foi incisiva ao não aceitar as alegações de Pell, de que ele não tinha conhecimento dos abusos praticados por padres de sua jurisdição na Austrália, nos casos de Ballarat e Melbourne. Em sua defesa, o cardeal afirmou que após medidas implementadas em 1996 na Arquidiocese de Melbourne, então sob sua gestão, justamente com o objetivo de investigar internamente casos de abuso sexual infantil praticados por religiosos, "as instituições católicas australianos agora estão entre as instituições mais seguras da Austrália".

De acordo com o comunicado divulgado por seu staff, ele sugere que os encontros com os sobreviventes ocorram a partir de quinta-feira, 3, quando ele espera já ter cumprido a série de sabatinas. "Cardeal Pell espera que essas reuniões possam ser úteis e contribuir para confortá-los. Ele está feliz em antevê-los individualmente ou em grupos menores, como já o fez muitas vezes no passado", disse o documento.

Essas vítimas são convidadas a comparecer com uma pessoa "para apoiá-las nas reuniões", mas "devido à natureza privada e pastoral dessas reuniões não seria apropriado que a mídia ou representantes legais possam delas participar". 

Coincidentemente, essa série de interpelações da Comissão Real da Austrália sobre a Resposta Institucional ao Abuso Sexual Infantil vem na mesma semana que o Oscar de melhor filme foi entregue para Spotlight: Segredos Revelados, que retrata uma investigação jornalística sobre crimes de pedofilia praticados por padres.

Na segunda-feira, após as primeiras quatro horas de depoimento, o cardeal australiano foi recebido em audiência reservada pelo papa Francisco. À comissão, Pell havia admitido que, em casos de pedofilia, "a Igreja cometeu erros enormes".

Não foi revelado o conteúdo da conversa entre o sumo pontífice e o cardeal. Mas, quando o purpurado chegou ao Hotel Quirinale para a segunda sessão via videoconferência, ele afirmou que tinha total apoio do papa Francisco. 

Até agora, Pell já afirmou que o padre Gerald Ridsdale, acusado por dezenas de casos, "foi transferido de paróquia em paróquia em vez de ser denunciado à polícia pelos crimes". Na avaliação do cardeal, a medida teria sido "catastrófica".

Pell também disse que, muitas vezes, faltou acreditar no que diziam as crianças e que a Igreja teria feito "besteiras". Ele, entretanto, negou que tivesse qualquer conhecimento das práticas de pedofilia de Ridsdale na Diocese de Ballarat, onde eles foram colegas entre 1973 e 1983.

Também em depoimento, o cardeal admitiu que havia boatos de que outro sacerdote, John Day, abusava de menores na mesma diocese. A Igreja, segundo Pell, "estava fortemente propensa" a desmentir qualquer acusação. "Não estou aqui para defender o indefensável", afirmou o cardeal. "A Igreja cometeu erros enormes e causou graves danos em muitos lugares, desiludindo fiéis. Mas está trabalhando para remediar."

Sobre Pell, vale ressaltar, não pesa nenhuma denúncia de que tenha cometido abusos - seu depoimento tem como objetivo determinar as práticas e respostas adotadas pelas instituições católicas australianas diante das denúncias de pedofilia entre os anos 1970 e 1980 no país. Antes, o cardeal já havia se desculpado duas vezes pelos abusos cometidos por outros sacerdotes católicos. Padre Risdsdale foi condenado pela Justiça australiana por 138 crimes contra 53 menores.

Oscar. Vencedor da estatueta principal do Oscar no domingo, Spotlight: Segredos Revelados, de Thomas McCarthy, mostra uma investigação jornalística justamente sobre a prática da Igreja de transferir padres suspeitos de pedofilia para outras dioceses, com o intuito de abafar as denúncias.

Os abusos sexuais cometidos por membros da Igreja vieram à tona em 2002, quando se descobriu que bispos da área da cidade norte-americana de Boston transferiam os estupradores de uma paróquia a outra em vez de expulsá-los. Desde então, foram revelados escândalos semelhantes em todo o mundo, e dezenas de milhões de dólares já foram gastos em indenizações.

Segundo dia. Na noite desta terça-feira, o purpurado depôs pela segunda vez à comissão de Justiça australiana. Foi duramente questionado sobre como ele poderia não ter sabido que padre Ridsdale estava abusando de crianças, uma vez que eram da mesma diocese. 

Em determinado período, Pell atuou como consultor do bispo de Ballarat, Ronald Mulkearns - e nesta condição, ele tinha reuniões periódicas com a autoridade, chegando a aconselhá-lo sobre a movimentação dos sacerdotes entre as paróquias de sua jurisdição. De acordo com a comissão, em uma reunião de 1982, na qual Pell estava presente, o bispo Mulkearns afirmou ter conhecimento dos abusos de Ridsdale. Foi nessa reunião que ficou decidido que o padre seria transferido, pela sexta vez, de paróquia.

Pell manteve sua versão. Afirmou que, apesar do "conhecimento generalizado" do comportamento de Ridsdale, a ele nada foi dito e ele nada sabia. O purpurado enfatizou esse desconhecimento, mesmo confirmando que foram colegas de paróquia e viveram sob o mesmo teto, em Ballarat. "Nunca soube que ele estava abusando de crianças", afirmou Pell. 

Em um dos momentos mais controversos do depoimento, Pell disse à comissão que o comportamento criminoso de Ridsdale era "uma história triste". "Sobre a qual nunca me interessei muito." 

O cardeal disse que não acredita que pessoas que desconheçam abusos, como é o caso dele, devam ser responsabilizadas por não proteger as crianças, rebatendo assim a afirmação da comissão de que ele estava "se excluindo das responsabilidades". 

Pell também negou aceitar qualquer responsabilidade pelo fato de que Ridsdale foi transferido de uma paróquia para a outra em vez de ser banido da Igreja. Quando foi colocada a situação de que era improvável que ele não soubesse que a razão pela qual o sacerdote estava sendo transferido frequentemente de paróquia fossem os abusos sexuais que ele cometia contra crianças, Pell respondeu que a colocação era "completamente non-sense". 

Pell. Cardeal desde 2003 e nomeado prefeito da Secretaria de Economia do Vaticano - uma espécie de Ministro da Fazenda - em 2014, Pell já foi apontado como um dos principais opositores do papa Francisco, adjetivo que ele nega. Membro do chamado C9, grupo de cardeais consultores que colaboram com o sumo pontífice nas reformas dentro da Vaticano, o australiano foi um dos signatários da carta enviada ao papa dias antes da abertura do Sínodo dos Bispos sobre a Família, encontro da alta cúpula da Igreja ocorrido em outubro, no Vaticano. /COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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