Carioca amplia folia com ''''rodízio de blocos''''

Jovens trocam dicas pelo celular para pular de um desfile para outro

O Estadao de S.Paulo

02 de fevereiro de 2008 | 00h00

A estudante Natália Loureiro, de 22 anos, e amigas formam um bloco dentro de blocos. De Mulher Maravilha ou de noivas, saíram no Carmelitas e se programam para o Céu na Terra, Boitatá e Empolga às 9. De bloco em bloco, o carnaval de Aline Mac Cord, de 32 anos, começou há 20 dias. Além de ser organizadora do Boi Tolo, um dos poucos "não-profissionais" do Rio, ela já participou do desfile do Suvaco de Cristo e de outros, nos últimos fins de semana, e tem longo roteiro a cumprir. "Este ano estou selecionando. Só vou nos que saem pela manhã, onde a muvuca é menor", diz Aline, que toca tamborim na bateria do Boi Tolo. O comportamento é cada vez mais comum. "Celular é necessário. Quando está acabando um bloco, a gente liga para os amigos para ver onde está mais legal", afirma. Para o compositor Mauro Diniz, campeão do Festival Nacional de Marchinhas deste ano, tem a ver com o caráter democrático do carnaval de rua. "Antes da retomada dos blocos, o carnaval era só Sambódromo. Quem não podia desfilar, não brincava. A tônica da festa havia sido abandonada, que é a diversão, a galhofa com o governo. Com os blocos, voltou o espírito carioca. Os ?blocos de sujos? estão abertos a todos, não é preciso pagar abadá", afirma Diniz, um dos diretores do novato Bloco dos Cachaças. E a galhofa já está presente nos nomes: Rola Preguiçosa, É Mole Mais É Meu, Vem Ni Mim Que Sou Facinha, Chupa Mas Não Baba e A Rocha - há novidades, como o Me Beija Que Eu Sou Cineasta, que vende pulseirinhas azuis, que identificam quem quer beijar só homem; vermelhas, para quem beija só mulheres; verdes, para quem beija ambos; e pretas, as mais vendidas, para quem beija "qualquer coisa que respira". Mas os mais famosos criaram estratégias para evitar multidões. Não divulgam horário ou fazem coincidir seus desfiles com outros mais procurados. É o caso do Céu na Terra, animado por orquestra com 50 músicos, que desfila por Santa Teresa na manhã de sábado, mesmo horário do Bola Preta, o mais antigo da cidade, que completa 90 anos e reuniu 200 mil foliões no centro, em 2007. "Não temos patrocínio nem cordões de isolamento. Para pagar as contas, vendemos nossos CDs durante o desfile", diz Wesley Brust, um dos produtores da Orquestra Céu na Terra. A bateria do Carmelitas, que também desfila em Santa Teresa, ontem começou às 16 horas, quando a previsão era o fim da tarde. Mesmo assim, reuniu mais de 3 mil pessoas. "O cartunista Loredano um dia disse: ?O Carmelitas era o bloco em que eu encontrava os amigos. Agora, é onde eu perco?. Santa Teresa não comporta 20 mil pessoas", conta Alvanízio Damasceno, o Xazinho, um dos organizadores. Esse esconde-esconde levou à criação do Boi Tolo. Em 2006, 400 foliões chegaram à Praça XV e descobriram que o Boitatá não sairia. Uma gaiata escreveu "Boi Tolo" numa cartolina, prendeu num tridente, e estava criado o bloco. É dos poucos sem patrocínio. As camisetas são pintadas a mão, uma a uma. Não tem carro de som. "Quem quiser, traz seu instrumento e toca. Nossa única promessa é que, mesmo que chova ou tenha final de Copa do Mundo, a gente desfila", diz Aline Mac Cord. PROFISSIONALIZAÇÃOPara Rita Fernandes, presidente da Sebastiana, organização que reúne os blocos mais tradicionais da cidade, a profissionalização se impôs. "Houve uma explosão de público a partir de 2005. Os problemas apareceram: multidões, segurança, trânsito, carro de som que não atende mais a tanta gente. Tivemos de nos unir para nos ajudar", explica.Os blocos ligados à Sebastiana, este ano, tiveram patrocínio da Ambev.O Azeitona sem Caroço, que sai no Leblon, vende camisetas pagas por uma rede de bares. "É para pagar os músicos, segurança", diz José Otávio Ferreira, o Azeitona.

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