Carioca viu ''liberação'' na saída da capital

Marly Motta, da FGV, diz que memória da ''perda'' veio depois e Jairo Nicolau, do Iuperj, aponta influência limitada na decadência da cidade

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2010 | 00h00

Um sentimento de "liberação" dominou boa parte da sociedade carioca durante o processo de transferência da capital da República do Rio para Brasília a partir do fim dos anos 1950, afirma a historiadora Marly Motta, do Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV). Avaliava-se que o governo federal interferia demais na vida da cidade e que o Rio ganharia com a possibilidade de eleger seu governante.

A atual memória dos cariocas em relação ao episódio - considerando a mudança como perda que levou à decadência - foi construída depois, resultado dos anos de más administrações. "Mais do que uma simples conta de perdas e ganhos com a transferência, o importante é entender por que e como se construiu essa memória de que o Rio foi "traído" e "roubado"." Marly conta ter identificado a "memória da perda" em 1985, nos dez anos da fusão do Estado da Guanabara com o antigo Estado do Rio, imposta em 1975 pela ditadura.

Decadência carioca. Os efeitos da mudança ainda são objeto de discussão. Paralelamente ao senso comum que aponta a perda da condição de Distrito Federal como causa da decadência político-econômica e do empobrecimento, pesquisadores tendem a relativizar a importância do episódio para o destino dos cariocas e apontam outros fatores que levaram o Rio a perder vigor.

Para o cientista político Jairo Marconi Nicolau, do Instituto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro, dois episódios foram fundamentais: a fusão dos Estados da Guanabara e do Rio; e a eleição de Leonel Brizola para governador em 1982.

"A vitória de Brizola foi inequívoca, mas, com o voto vinculado, "matou" uma ala autêntica do MDB que fazia política aqui desde a Guanabara", afirma. "Veio uma nova elite política, com ex-exilados e políticos do interior." Segundo o pesquisador, a instabilidade ajuda a explicar a dificuldade de organização, no Estado, dos grandes partidos nacionais - PT e PSDB têm seções inexpressivas - e o fato de o Rio ter produzido, nos últimos 20 anos, só dois presidenciáveis significativos: Brizola, pelo PDT, e Anthony Garotinho, pelo PSB.

Erro da elite. O historiador Carlos Eduardo Sarmento, também do CPDOC-FGV, afirma que a interpretação que atribui a decadência do Rio à mudança da capital é "confortável para a elite política e econômica do Rio", mas os problemas da cidade eram bem anteriores. "O Rio era, na virada do Século 19 para o 20, uma cidade industrial, mas foi perdendo capacidade de investir na indústria."A economia carioca, crescentemente portuária, ressentiu-se, nos anos 1930, do crescimento da economia paulista e do deslocamento do eixo de circulação de mercadorias para Santos.

Para Sarmento, houve um "erro de estratégia" da elite econômica. "O presidente Juscelino Kubistchek abriu um canal para negociar compensações com o Rio, e sabe o que a Federação das Indústrias e a Associação Comercial pediram? O viaduto da Perimetral (zona portuária), porque a cabeça deles estava no porto."

Ele afirma ainda que desde 1891 vivia-se uma discussão sobre a influência do poder federal que "estrangularia" a cidade. "Havia grupos que queriam a autonomia, porque isso lhes daria poder de barganha, verbas. Nas décadas de 10, 20, 30, 50 já se discutia a autonomia política do Rio." A União, afirma, deu opções para o Rio tentar vencer a estagnação, instalando no vizinho Estado do Rio a Fábrica Nacional de Motores e a Companhia Siderúrgica Nacional. "Não fomos traídos pelo governo federal. Não somos pobres coitados", insiste.

Tendência. Para o ex-prefeito Cesar Maia (DEM), a mudança tirou do Rio a condição de centro da política, que tivera no Império e na República. Ele acredita que a decadência da cidade também teve outras causas. "O governo (Carlos) Lacerda fez um amplo estudo e mostrou que a tendência era a mesma de outras grandes cidades do mundo: deixar de ser centro industrial." Cesar Maia avalia que a fusão "certamente" teve efeito pior sobre a cidade, porque transformou "um Estado rico num município sem a metade dos recursos".

Protagonista de um dos episódios que provavelmente contribuíram com a nostalgia pela condição de capital federa - a falência das finanças, que reconheceu em 1988 -, o ex-prefeito do Rio Saturnino Braga, de 78 anos, diz que, durante a construção de Brasília, falava-se em prejuízo apenas para o Brasil.

"Logo após a saída do Distrito Federal, o Rio se beneficiou com as receitas da cidade-Estado (Guanabara)." Ele lembra que os cofres da nova Unidade da Federação recebiam todos os impostos estaduais arrecadados na cidade, além dos municipais.

Riquezas. "Houve um período áureo para as finanças locais, nos governos de Carlos Lacerda (1961-65), Negrão de Lima (1966-71) e no primeiro do Chagas Freitas (1971-75)", afirma Saturnino. Com dinheiro, Lacerda pôde fazer, por exemplo, obras, como o Parque do Flamengo e o Reservatório do Guandu.

Saturnino avalia que a decadência da cidade veio da fusão dos Estados, não da mudança da capital para Brasília. "O Rio entrou no poço. E o fundo desse poço eu peguei como prefeito."

O historiador Sarmento discorda do elogio à Guanabara. "Era uma falácia", afirma, destacando que, embora unidade hoje extinta fosse forte do ponto de vista fiscal, era "inviável em termos econômicos."

CRONOLOGIA

Até 1763

Salvador

A atual capital baiana foi também a primeira capital do País, função que exerceu até 1763

1763 a 1960

Rio de Janeiro

O Rio foi capital do País de 1763, quando substituiu Salvador, até 1960

21 de abril de 1960

Brasília

Inaugurada por Juscelino Kubitschek, Brasília é a terceira capital brasileira

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