Cariocas fazem quebra-quebra após morte de pescador

Revoltados com a morte do pescador Luiz Antônio Dornella Rodrigues, de 31 anos, durante operação da Polícia Militar, moradores da favela da Praia da Rosa, no Rio de Janeiro, incendiaram um ônibus e telefones públicos, jogaram pedras nos policiais e em carros particulares e depredaram uma clínica particular na madrugada desta sexta-feira. Outras duas pessoas foram feridas a tiros. Pela manhã, policiais militares foram apedrejados novamente e reagiram atirando para o alto. No fim da tarde, uma granada e uma bomba de fabricação caseira foram lançadas contra os policiais. A favela ficará ocupada por 45 homens do 17º Batalhão por tempo indeterminado.Segundo testemunhas, Rodrigues assistia ao jogo entre Brasil e Islândia na companhia de amigos em um bar, por volta das 23 horas, quando policiais entraram atirando na favela. Ferido com um tiro na virilha, ele demorou a ser socorrido e foi levado em um carro da PM para a clínica Santa Maria Madalena. De lá foi transferido para o hospital municipal Paulino Werneck, onde chegou morto. Também ficaram feridos, no mesmo local, o pescador Paulo Roberto da Silva, de 32 anos, com ferimento na coxa direita, e o estudante Luiz Fernando da Silva, de 16, atingido no abdome. O caso mais grave é o do menor, que foi operado.Sem propinaMoradores denunciaram que a ação da polícia teria ocorrido porque traficantes não pagaram propina. A versão da polícia é de que uma patrulha teria sido alertada sobre a presença de traficantes armados. Quando invadiram a favela, foram recebidos à bala pelos traficantes. Após o tiroteio, que durou aproximadamente 30 minutos, os policiais apreenderam uma pistola, um revólver, 87 papelotes de cocaína, 122 trouxinhas de maconha, diversos tipos de munição, uma farda camuflada e toucas ninja perto do local onde estavam os feridos.Depois do tiroteio, os moradores começaram a apedrejar os policiais. Incediaram um ônibus, depois de espancarem o motorista e o trocador, apedrejaram dois carros particulates e fizeram barricadas com pneus. Cerca de 30 pessoas - muitas encapuzadas e armadas com paus e pedras - invadiram a clínica e começara a quebrar móveis e equipamentos. Rodrigo Otávio da Silva Costa, de 19 anos, foi preso quando tentava se esconder no centro cirúrgico.GranadaNo final da tarde, um carro passou em alta velocidade pela Rua Domingos Mondim, onde ocorreram os tumultos e seus ocupantes jogaram uma granada e uma bomba de fabricação caseira em um carro da PM. Ninguém ficou ferido. "Essa é a polícia preparada do governador, que mata trabalhadores", disse o pescador Evanildo Magalhães Mota, de 56 anos, colega do morto. Janaína Duarte Leite, de 25 anos, viúva de Rodrigues, acusou os policiais de terem dificultado o socorro ao pescador. "A polícia não deixou os irmãos dele passarem. Será que agora vão ajudar a criar a minha filha?", disse. O casal tem uma filha, Luziane, de 9 anos.Nesta sexta-feira à tarde uma comissão formada por cinco moradores foi recebida pelo secretário de Segurança Pública, Josias Quintal. O secretário ordenou o afastamento de um PM, ainda não-identificado, flagrado por câmeras de televisão apontando uma pistola para duas moradoras da Praia da Rosa e ameaçando. Quintal determinou a apreensão de cápsulas de munição de fuzil, levadas pelos moradores, para testes de balística. Ele prometeu apurar o caso e punir os responsáveis pela morte do pescador e pelos atos de vandalismo.

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