Carlinhos Brown denuncia apartheid e faz bloco sem cordas

Autor da maioria dos hits do Carnaval da Bahia há 20 anos, o artista Carlinhos Brown também coleciona polêmicas, especialmente quando chama atenção da mídia para o que considera o apartheid em que vive o País e que ficaria ainda mais evidente durante o Carnaval. Este ano, Brown estréia o que vem sendo chamado de primeiro "bloco sem cordas" da folia baiana, em uma crítica à situação precária dos cordeiros, geralmente pessoas pobres e negras que levam as cordas por quilômetros agrupando o público pagante. "Acho que as cordas são desnecessárias. Elas ainda trazem resquícios de navio negreiro, que o cara vem nas cordas, do trabalho forçado, de escravidão, e acima de tudo é uma base do apartheid", disse Brown à Reuters, no sábado. "Isso não é discurso de vários artistas (...) tem muita gente na minha cidade que é artista, é muito bom, mas não tem discurso, então não vai discutir na hora que os problemas sociais são gravíssimos", disse, exaltado. Brown evita aprofundar a polêmica com os artistas, ao contrário do que fez no ano passado. Em 2006, de cima de seu trio, ao passar em frente ao camarote do ministro da Cultura, Gilberto Gil, Brown reclamou que alguém precisava acabar com esse "apartheid escroto" e dar educação ao povo, que se digladiava embaixo. "A ditadura não acabou para nós", disse no sábado. "Para preto e para pobre, as imagens são iguais àquelas de cavalos batendo, de polícia dando no lombo. Isso não acabou, o País precisa saber que não acabou", disse Brown, referindo-se à violência que vê de cima do trio e a reação da polícia. Brown, que lidera vários projetos sociais em Salvador, sairá com o novo trio Pipocão na segunda-feira. Ele quer manter a unidade de bloco, porém sem as cordas, distribuindo 30 mil tiaras em formato de pipoca para os foliões usarem. O artista promete no próximo ano tentar acabar com as cordas do Timbalada, grupo de percussão fundado por ele. A cantora Margareth Menezes, que puxa o famoso bloco dos Mascarados, chegou a prometer o mesmo para 2008. "Show de graça pro camarote?" Além das cordas, Brown também chama atenção para os camarotes que se multiplicam pelos dois principais circuitos carnavalescos, onde o folião paga para ter uma vista privilegiada. Para o baiano, os camarotes deveriam pagar uma taxa aos artistas, evitando a dependência de patrocinadores, como aconteceu este ano com um grupo de 46 entidades afros que desfilou sem ver a liberação de recursos captados. "Não importa quem esteja na avenida, (os camarotes) vão ter que pagar, para a gente parar de mendigar", disse Brown, lembrando que no Rio de Janeiro a TV Globo paga para a liga das escolas de samba. "Vai ser a oportunidade de não passar ali preocupado se vai dar para pagar o motorista (do trio)." Talvez sem querer, Brown acaba entrando em outra rusga com o ministro, cuja mulher, Flora Gil, organiza o camarote mais exclusivo e repleto de patrocinadores de Salvador, o Expresso 2222. Mas ele ameniza. "Todo mundo quer que eu brigue com o ministro... Eu amo o Gil", disse. "Que bom que ele conseguiu (dar certo com o camarote), falta nós. Gil não pode ser culpado por isso." Brown, que chocou os baianos ao ficar completamente nu em cima do trio da Timbalada em 1998, tem só neste Carnaval seis composições candidatas a ser o hit do verão cantadas por inúmeros grupos, repetidamente, como todo ano.

Agencia Estado,

18 Fevereiro 2007 | 10h50

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