''Carnasofia'' - A filosofia brasuca por trás dos desfiles paulistanos

O samba não pode atravessar, mas no enredo vale misturar culturas, histórias, tradições e o que mais se achar

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

21 Fevereiro 2009 | 00h00

Em todo desfile, uma pequena tese vai para a avenida. Cada apresentação começa a ser pensada um ano antes, a partir de um tema - que em "carnavalês" se chama enredo -, em torno do qual as escolas criam fantasias, alas, carros alegóricos, sambas e letras. No papel de pensador, o carnavalesco exerce a função de filósofo-chefe do carnaval.Para um desfile sair, os enredos ou temas precisam ser abstratos e/ou abrangentes o bastante para que criadores e escolas consigam fantasiar cerca de 4 mil pessoas, divididas em 25 blocos com diferentes modelitos, intermediados por cinco carros alegóricos. Os 14 enredos deste ano em São Paulo são variados: da Amazônia, tema da X-9 Paulistana, a Regina Casé, da Leandro de Itaquera.Engana-se, contudo, quem imagina que durante o processo de criação os neurônios do carnavalesco funcionam somente embalados pelas ondas do samba. Antes é preciso silêncio e concentração. Os sambistas pesquisam e colhem dados sobre o tema da escola. Depois preparam uma sinopse, que vai nortear o trabalho ao longo do ano. A partir daí, as informações, assim como os demais componentes da agremiação, vestem a fantasia. Na sinopse que preparou para o desfile da Unidos de Vila Maria sobre a história do dinheiro, o carnavalesco Wagner Santos trouxe desde as informações pré-históricas do escambo até o real. E tamanho esforço não passou em branco pelos letristas do samba-enredo. Eles acabaram encaixando uma informação preciosa, apesar de um pouco fora de contexto, na letra da Unidos: o papel dos lídios, descendentes dos hititas, que habitavam a Lídia, para a história mundial contemporânea. Na madrugada de sábado, o público cantou a pérola: Na Lídia surgiu o capitalismo/ a moeda floresceu/ Imagens reluziram em suas faces/ O metal prevaleceu.ANGOLAOutro que caprichou nas pesquisas foi o carnavalesco da Tom Maior, Marco Aurélio Ruffinn, que tem pós-graduação em Carnaval e Cultura Brasileira pela Universidade Estácio de Sá, no Rio. Ruffinn passou três meses enfurnado no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP) colhendo informações sobre Angola, o tema da escola. Aprendeu sobre as etnias africanas que vieram ao Brasil, sobre o semba, ritmo que cruzou o Atlântico para dar origem ao samba, pesquisou a colonização portuguesa, a ditadura comunista, a guerra civil e a fase atual de transição no país. Tudo registrado e compreendido dentro da mais pura lógica cartesiana.Depois da dura lição de casa, concluída ainda no ano passado, as informações precisavam ganhar plumas e paetês. Os dados pesquisados foram confrontados com a inspiração sem limites do carnavalesco, que acabou conseguindo ligar a história de Angola com Martinho da Vila, outro homenageado da Tom Maior."Claro que pesquisei muito. Mas não queríamos mostrar simplesmente a história do país. Queríamos reconstruir a Angola negra e unificada. Começamos com a guerra civil, depois passamos para a ligação entre Brasil e Angola, encerrando o desfile com aquele que é o ponto de convergência que liga esses dois países à Tom Maior: Martinho da Vila", tenta explicar Ruffinn. Se não fosse misturado assim, não seria "carnasofia".A "carnasofia" também fez parte do processo de criação da Pérola Negra, escola da Vila Madalena que tem a Índia como inspiração. Para aprender mais sobre o país, a escola importou dois especialistas indianos: Uma Sharma, celebridade e dançarina do Kathak, e Francisco Martins, presidente do carnaval de Goa, região indiana de colonização portuguesa. Na consultoria, os dois contaram sobre costumes, roupas, religião e divindades.E se todas essas informações já não fossem suficientes para inspirar e fazer viajar, na hora de elaborar o enredo entrou em cena a imaginação do carnavalesco André Machado, que adicionou um novo elemento ao roteiro. A Índia se tornou só o cenário de um sonho no qual o personagem sai em busca de um objeto sagrado: o amor que ele sente pela Pérola Negra!E OS FARAÓS?E os faraós... A "carnasofia" ajuda, até mesmo, a compreender o motivo de o Egito e os faraós se tornarem elementos recorrentes nos desfiles. Mesmo quando não estão diretamente relacionados ao enredo. No desfile da Gaviões da Fiel, cujo tema é a roda, a abertura é inspirada justamente no universo egípcio, se encerrando com uma homenagem ao corintiano Ayrton Senna (!).O enredo é O Sonho comanda a vida, quando o homem sonha o mundo avança. A fantástica velocidade da roda para a evolução humana. É pura adrenalina!. Com um tema de tal abrangência, sempre haverá espaço não somente para o faraó e para o Egito - com sua variedade de fantasias e muito dourado -, mas também para falar de escravidão, índios e até da Fórmula 1. "Vamos falar do Egito para mostrar as dificuldades dos povos para carregar as coisas antes de a roda ser inventada", explica Zilkson Reis, carnavalesco da Gaviões. "Já o Ayrton Senna representa a velocidade sobre as rodas." É pura "carnasofia"!

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